segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Piada interna


Como reagir quando alguém na “vida real” dá a sua deixa ou fala o texto de uma peça que você está ensaiando?

Termina o texto, correndo o risco de a pessoa não entender, e ter de explicar a cena?

Você entra com a sua fala e quem deu a deixa, sem saber, solta um sonoro:

- Hããã! E você responde:
- Nada, pensei alto.

Há outra hipótese também, talvez esta seja a mais comum. Fala mentalmente o texto, faz aquela cara de bobo que só a paixão por algo ou alguém é capaz de produzir, seguida daquela chacoalhada de cabeça para desfazer o semblante.

E as montagens feitas há anos, que de tão especiais nunca esquecemos as falas? Sem contar as falas das outras personagens, que de tanto ensaio decoramos também.

É claro que tudo no teatro é extraído do dia-a-dia, só que na maioria das vezes o interlocutor não conhece a peça, e a deixa foi dada na hora mais imprópria para brincadeira. Tenho três cenas que volta e meia surgem fora dos palcos.

Às vezes ao se despedir das visitas que recebemos nos finais de semana em casa a minha mãe diz:
- Não vai fica mais um pouco.

E na minha mente entra em cena Joana furiosa com Jasão em Gota D’água de Chico Buarque dizendo:
- Isto não fica assim!

No trabalho marcando uma nova reunião alguém fala:

- Quando é que nós três vamos nos encontrar de novo?
Eis que me aparece a primeira feiticeira da peça Macbeth de Shakespeare sugerindo:

- No raio, na chuva ou na tempestade?

E a supercampeã, a que mais sai do palco e entra no meu cotidiano, só que esta as vezes não vem certinha, geralmente tenho que adaptar a fala da pessoa.

- Sabe onde eu fui hoje?

Logo respondo:
- A cartomante, aquela que me recomendaram. (Zulmira falando com Tuninho em A falecida de Nelson Rodrigues).

Confesso que na maioria das vezes completo as falas. Não costumo explicar cena nenhuma, acabo servindo de prova para as pessoas afirmarem “esse povo de teatro é tudo doido”.

Escrito por audrey 
Foto: Por Yasmin Mikhaiel - Espetáculo 'Rightlynd'

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

A Campainha


Beeeeemmm! Primeiro sinal.

Frio na barriga ouve-se o burburinho do público entrando, quem faz a primeira cena começa a se posicionar. Em fração de segundos é possível “passar” todas as falas da peça ou lembrar de que não foi ao banheiro e geralmente quando lembramos disto a vontade sempre vem. Dependendo do figurino e da distancia dá para resolver o assunto antes do segundo sinal, caso contrario é bom pôr em pratica todas as técnicas de Stanislavski de concentração e preparação de ator que a vontade passa, na maioria das vezes é nervosismo mesmo.

Beeeeeemmm! Segundo sinal.

O ápice da tensão. É nessa hora que sempre me questiono por que fui inventar isso? É tão mais fácil ficar na platéia. O que eu faço? Simulo um ataque? Um desmaio talvez? Não vale a pena, seguindo a máxima: O show deve continuar; com certeza seria substituída por alguém. Enquanto pensei nestas bobagens todas sai totalmente da personagem, para voltar inicio o mantra “calma, calma, se concentre, calma, calma, se concentra…”.

Beeeeeemmm! Terceiro sinal.

MERDA!

Não sei explicar como, mas entre o terceiro sinal e a cortina se abrir relaxo como se nada tivesse acontecido e tudo dá certo.

É esta adrenalina que me encanta no teatro, mais até que o aplauso. O aplauso é importante, gratificante, mas essa apreensão funciona como uma espécie de termômetro. A partir do momento que pisamos no palco na base do “piloto automático” significa que esta na hora de começar estudar novas peças, ensaiar uma nova montagem e se preparar para outra tensão.

Beeeeemmm! A campainha de uma estréia.

Escrito por audrey

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Não precisamos ter medo do Grande Irmão


O ator lida com a fantasia não com a realidade, mas qual o problema em pessoas que surgem para o grande público em um reality show iniciar uma carreira artística depois da fama repentina?

Caso alguém tenha recebido uma oferta de emprego num banco, por exemplo, apesar de não ter experiência alguma na área, ela não fica ouvindo xingos ou chacotas por ser um profissional inexperiente. Pelo contrario em muitos casos os companheiros de trabalho ajudam o profissional inexperiente.

O tempo que as pessoas gastam criticando estes novos atores poderia ser utilizado para estudar. Acredito que tais agressões, talvez inconscientemente, retratam uma necessidade de auto-afirmação, uma insegurança. E a partir do momento que nos sentimos inseguros é porque está na hora de nos aperfeiçoarmos. É assim no mercado de trabalho “tradicional”; quem sente que seu emprego está ameaçado ou que está precisando de novos conhecimentos para progredir faz uma faculdade, uma pós-graduação, um curso de idioma, informática qualquer coisa para justamente manter-se atualizado e não ter medo de perder o emprego para um desqualificado. Por que a classe artística se acha no direito de fazer diferente? Atores têm o direito de agredir publicamente os outros?

Em tese quem se inscreveu em um reality show tinha uma outra profissão (cabeleireiro, advogado, medico, modelo, etc.) e passou a “atuar” em comerciais e novelas depois da fama. Que mal há em tentar? Um famoso de reality show atrai anúncios e audiência. A televisão sempre precisou de imagem, de pessoas que ficam bem no vídeo, então porque uma empresa de comunicação não pode investir em um novo funcionário?

Podemos não gostar de alguém ou do seu trabalho, mas devemos sempre respeitá-lo. Esta atitude respeitosa é principalmente prudente, porque se por ventura estes novos atores se dedicarem e o antigo clichê “só quem tem talento vai sobreviver” se comprovar, com uma carreira de sucesso a convivência entre os atores será péssima.

Muitos me perguntam o que devo fazer para ser ator. Acredito que participar de um reality show é o caminho menos indicado, mas tenho que admitir que a vida nos oferece diversas oportunidades cabe a nós sabermos aproveitá-las ou não.

Escrito por audrey
Foto: Marc Brenner. Espetáculo "The Brothers Size" no Young Vic.