segunda-feira, 27 de março de 2017

Todo Ator É Um Rei?

Sir Lawrence Olivier em cena interpretando o rei Ricardo III.

Ouvi constrangido, com vergonha alheia, o áudio íntimo do ator e produtor Claudio Botelho. Lamentável que tenha sido divulgado em todas as redes sociais, e aqui não estou para julgar o colega, ao contrário, compadeço-me dele. Compadeço-me do seu desespero, do seu desamparo, da sua incompreensão do que se passara. O que dera errado? Todas as noites ele colocava um “caquinho” de sátira política, e a plateia delirava. O que dera errado naquela noite?

O áudio me remeteu muito mais a uma criança magoada, e por tal com muita raiva, que a um adulto centrado. Por isso me compadeço.

Mas fica uma coisa na minha cabeça, que ultrapassa o Claudio Botelho: o conceito de que o ator no palco é um rei que não pode ser interrompido. Esse conceito é aristocrático. Parte do princípio de que o que fazemos no palco é sagrado, que somos sacerdotes em liturgia sacra. Não é verdade. Somos trabalhadores do entretenimento, procurando agradar uma plateia que paga para nos ver, que nos elegeu – reis não são eleitos – para representa-la. Nosso corpo e nossa voz são mídia, meios de comunicação. Por nós passa o poder de representar uma plateia e seus anseios. Só isso. Terminada a função o poder que nos foi conferido se esvai, parte com o vento e vai atravessar outras pessoas, outros profissionais, de todas as áreas, deixando-nos na nossa simples e humilde, mísera condição humana, comum a todos os demais mortais. Sejamos cada vez mais humildes, é o único caminho para nossa pacificação interna.

Ainda outra coisa: o que ocorreu não tem semelhança com “Roda Viva”. Em “Roda Viva”, um grupo de Direita, fascista, organizado, armado, composto inclusive por policiais, espancou atores e público por pura intolerância. Foi um ato preparado para empastelar um espetáculo. Em Belo Horizonte assim como foi espontâneo o “caco” do Claudio, foi também espontânea a reação da plateia. Só isso, essa a diferença.

"E quanto ao racismo?" Hão de me perguntar os mais coléricos. Se houve ou não , que se pronunciem primeiro os colegas afro descendentes, os mais interessados em discutir o fato. Eu recuso-me a julgar.

Portanto, pra mim todo o incidente em Belo Horizonte foi motivado por um equívoco de avaliação do ator em cena. Os tempos são de cólera. E torno a dizer, não julgo, compadeço-me do momento do jovem ator e produtor que tão sofridamente teve seu encontro com a Verdade e que mais sofridamente viu seu ego exposto para todo o País.

Escrito Por Bemvindo Sequeira

Colaboraram: Bemvindo Sequeira; entretenimento.r7.com;

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