segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Cada Vez Mais Busco o Som do Silêncio

"(Escolhe) teu melhor silêncio. Mesmo no silêncio e com o silêncio dialogamos".
Drummond

Ouça o som do silêncio

Esses dias estive em São Paulo gravando um Programa, onde participei como jurado de um concurso de dança.

Lá, uma equipe de jornalismo da Record me entrevistou para um perfil .

A última pergunta que me fez a jornalista foi:

"- O que mais você deseja agora. O que você almeja?"

Acho que ela quis dizer profissionalmente. Em geral os atores respondem:-

"-Ah eu gostaria de fazer o Rei Lear, de Shakespeare. Ou: queria fazer Pirandello. Ou Tartufo de Moliére..."

Eu não entendi a objetividade da pergunta e respondi:

"- Quero muito aprender a ficar calado. Almejo o silêncio."

Talvez tenha frustrado a repórter, mas realmente este é um objetivo que venho perseguindo nos últimos tempos: o silêncio.

Falei demais a vida inteira. Raramente mantive-me calado. Falei e ainda falo pelos cotovelos. Dou palpites em tudo. Discuto tudo. E isso serve também para o quanto falo pelas redes sociais.

Não consigo ficar em silêncio ouvindo minha voz interior.

Antes que a ideia se forme na minha cabeça o meu coração já tomou a palavra. Sempre foi assim.

Hoje, mais velho, sinto uma necessidade imensa do silêncio.

Falar pressupõe conhecimento, porém conhecimento não pressupõe sabedoria.

A sabedoria é pacificação.

O sábio fica em silêncio e no silêncio ele ouve o Mundo inteiro falar. Mas ouve sobretudo seu Voz interior.

Hoje, mais velho, busco o silêncio como forma de ouvir Deus.

Escrito Por Bemvindo Sequeira

Colaboraram: Bemvindo Sequeira; entretenimento.r7.com;

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

A Plateia Canastrona

Encarar uma plateia dessas numa comédia é de matar o comediante!

O colega, veterano Agildo Ribeiro tem uma tese muito engraçada. Ele acha que em certas sessões de teatro os chatos combinam:

- "Vamos lá ver o Agildo hoje. Já sabem: ninguém ri, hein?!"

Ele acha que há um inconsciente coletivo em que certas noites de espetáculo a platéia resolve não participar. Não rir. Não interagir.

Claro que não há nada científico que comprove esta tese. Mas eu mesmo já vi plateias assim e concordo com ele.

É um exemplo de plateia canastrona.

É aquela plateia que não reage no tempo certo. Se ri, ri com delay, atrasada e complica o ritmo da peça.

Se suspira num drama o faz também fora de tempo. É aquela platéia que vai assistir um drama que exige silêncio absoluto e leva balas embrulhadas em celofane pra chupar e repassar de mãos em mãos durante a peça.

Há também os celulares - que nem sempre tocam - mas acendem no escuro da plateia e distraem público e atores.

Há os que chegam atrasados e vão sentar bem no meio da fileira: "- Com licença...licença..licença..." E toda a fila levantando e sentando.

É a plateia que quando o teatro não está lotado sentam do meio pra trás. Afastam-se dos atores. Fogem da trama.

Lá de cima do palco a gente observa tudo isso.Quando não vê por estar muito concentrado no foco da ação, ouve.

A relação dos atores com a plateia é como uma orquestra. A plateia também é instrumental. Todos tem qua estar afinados. Aí acontece o fenômeno da arte cênica: a inspiração que seja pela comédia, ou seja pelo drama enche de graça todos que dele participam.

Escrito Por Bemvindo Sequeira

Colaboraram: Bemvindo Sequeira; entretenimento.r7.com;

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

A Barba de Cinco Dias, Moda do Momento

Não sei porque, mas desconfio que essa moda vem de Hollywood. (risos).

É moda entre a garotada (já nem tão garotos assim) a barba de cinco dias.

O que é isso exatamente? É aquele rosto masculino que traz estampado uma pequena barba por fazer.

Não grande demais que os torne ortodoxos radicais, nem pequena demais que os torne imberbes adolescentes.

Não. Há uma medida certa: cinco dias. E muito bem aparada para que dê a impressão certa de desleixo medido e comedido.

Na verdade a barba já está lá, no rosto, há mais de ano, mas tem que ter a aparência de cinco dias. Nem mais, nem menos.

Ai dos que tem falhas de barba, ou dos imberbes: perdem a disputa das garotas no mercado das paixões emocionantes.

Observo a barba dos judeus ortodoxos...dos muçulmanos...a barba dos antigos militantes petistas...a barba dos cubanos de Sierra Maestra...a barba dos políticos e barões do século 19...eram barbas de respeito!!!

A barba de Leon Tolstoi. Aquilo sim era uma barba!!!

Tolstoi

Barbas históricas sob as quais podia-se imaginar um mundo de criaturas microscópicas, mas vivas, pululando de alegria protegidas do sol e demais adversários.

Hoje as barbas higiênicas, assépticas da garotada. Barbas eróticas, sexualizadas, cuidadosamente aparadas para o único objetivo: o charme contemporâneo.

Não a barba ou o bigode do qual se arrancava um fio e com ele honrava-se os compromissos. Nada disso.

Mas seja como for, a barba ou a raspagem dela revelam sobretudo um código de expressão de um indivíduo na sociedade, em qualquer época, desde os barbudos filósofos gregos do século V AC até os barbudos gays dos EEUU de hoje, ou aos lisinhos e depilados galãs de academias.

Entre Tolstoi e ele muitas signagens sociais.

Escrito Por Bemvindo Sequeira

Colaboraram: Bemvindo Sequeira; entretenimento.r7.com;

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Melhor Me Mudar Pro Retiro dos Artistas


Eu entro no closet do meu quarto e não consigo me encontrar naquela loja de departamentos.

Porque as pessoas normalmente deviam de ter guarda roupa, armário... lá em casa não: é loja de departamentos!

Uma montanha de camisas e calças que mesmo que eu usasse uma diferente em cada dia do mês, por um ano ainda assim não conseguiria usar todas.

Então, com a praticidade masculina eu pego o que está mais próximo, mais à mão, e quase sempre é a mesma calça e a mesma camisa. ! Porque o homem se deixar veste a primeira coisa que encontra pela frente.

Agora me digam , pra que 200 camisas. 150 calças se eu pego quase sempre as mesmas?

Por um estranho desejo de simplificar as coisas eu uso quase sempre a mesma calça e a mesma camisa, que ela chama de “uniforme”.

- “Já vestiu seu uniforme?”

Aquilo me mata...

Mas porque eu tenho tanta roupa que nem sei o que escolher para usar?

Simples: toda vez que ela sai traz mais uma roupa nova pra mim. E diz:

- “Comprei porque estava barato!”.

É uma mania que as mulheres tem de comprar porque está barato.

- “Custa 400,00 mas estava por 250,00 aí eu aproveitei e comprei porque estava barato!”

Pois é, eu visto o que encontro.

E justo no dia que cismo de escolher direitinho pra agradar: essa não, essa sim, esse não esse sim...meia hora escolhendo , põe a camisa, a calça, a meiazinha e quando se apresenta diante dela, ouve:

- “Você não vai sair com esta calça!?... Não acredito que você vai usar esta camisa pra ir ao jantar? Não é possível, este sapato? Tá na hora de jogar fora!!!”

Às vezes eu procuro o meu sapato preferido, aquele velhinho que o tempo já ajustou confortável ao meu pé, e não acho, procuro daqui procuro dali e não acho.

- “Botei fora!”, diz ela. “Se eu não botar fora você não compra outro. “

- “Mas é o meu sapato que eu mais gosto, confortável, não machuca meus pés... “

- “Não adianta já doei pro Retiro dos Artistas”

É aí que eu tenho vontade de largar tudo e ir morar no Retiro dos Artistas porque as coisas...as minhas melhores coisas estão lá.

Escrito Por Bemvindo Sequeira

Colaboraram: Bemvindo Sequeira; entretenimento.r7.com;

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

“Um Teatro Vazio Parece Que a Vida Foi Ontem”


Quem vê o artista em cena, sendo aplaudido, iluminado por trocentos watts de luz feérica, sorrindo e abrindo os braços em agradecimento, sendo ovacionado pelo seu público...não imagina a sua solidão.

Eu pessoalmente passo durante minhas apresentações solo por dois grandes momentos de pura solidão. De puro "estar comigo".

O primeiro é entre o segundo e o terceiro sinal ( Os minutos que antecedem a abertura do pano).

Saem todos que te acompanham. Todos estarão em seus postos: iluminador, contra-regra, sonoplasta, camareira, todos.

E só eu na coxia contando os minutos, em absoluto silêncio, ouvindo o murmúrio da platéia enquanto meus olhos vagueiam pelos espaços escuros dos bastidores.

É quando eu me pergunto como tornei-me isso: um profissional das artes cênicas. Como passei já quase meio século da minha vida nessa caixa de ilusões que é o teatro.

Sei que dali a pouco terei que entrar sob as luzes para conquistar o público a cada noite. Sei a tarefa que terei pela frente. Mas nada é mais profundo e ameaçador que o mergulho que dou dentro de mim mesmo naqueles momentos que antecedem minha entrada.

O outro desesperante e grande momento de solidão acontece após os aplausos. Quando a cortina se fecha e depois da troca no camarim retorno ao palco para sair do teatro.

A sala está completamente vazia. O público a esvazia em minurtos. Antes lotada, aplausos, gargalhadas, vida! Em minutos apenas cadeiras vazias, semelhando ossos secos do que antes fora vida. Luz de serviço e ninguém. Os que te esperam estarão no saguão pra te abraçar.

Mas do camarim até o saguão é a passagem da solidão.

É quando você percebo que o poder não é meu. Que o poder me atravessa , usa-me como meio, mas não fica comigo.

E assim, decaído, reduzido à mísera condição terrena atravesso o palco e a fileira das cadeiras vazias lembrando da frase do grande Procópio ferreira:

- "Um teatro vazio parece que a vida foi ontem."

Escrito Por Bemvindo Sequeira

Colaboraram: Bemvindo Sequeira; entretenimento.r7.com;