segunda-feira, 14 de março de 2016

“Se Essa Rua, Se Essa Rua Fosse Minha..”

Universo ou pedrinhas de brilhantes?

A rua era o Universo.

A pequena e desconhecida rua de terra do subúrbio caroca era o Mundo inteiro.

Tudo que acontecia no Planeta acontecia também naquela rua , só que com mais intensidade.

Um eclipse lunar era acompanhado por todos, visto e revisto da calçada ainda quente do sol suburbano.

Eclipse solar então... era motivo de desespero. Uma calamidade. Algo sobrenatural. O Mundo ia acabar ali, agora? E se o Sol se espatifasse na Terra e acabasse em fogo como diziam os antigos?

Eliezer, único exemplar adicto da rua sentava-se plácido à porta da sua casa, na escada de entrada e via o mundo eclipsado através dos seus olhos vagos após uma crise que toda a rua tomava conhecimento.

Passado o "fim do mundo" e a crise de Eliezer as pipas voltavam aos céus, com bastante cerol, moído e remoído, colado e recolado em linha 10, aos gritos de "Tá com medo tabaréu? É linha de carretel!"

O Mundo era a rua e era simples como aquela gente que ali vivia.

Jorge e Ney eram negros; Vital e Ivanzinho, mulatos; Bebel e eu éramos morenos; Josimar era louro de olhos azuis e usava tranças mesmo com sete anos de idade, promessa de sua mãe para uma cegueira de que fora curado.

Não sabíamos que haviam cores entre as pessoas. Todos eram pessoas, amigos, gente.

Como disse muito bem Mandela: "Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar."

E era assim naquela rua: as crianças brincavam e sequer imaginavam que houvessem tais diferenças.

Naquela rua o jogo de bola parava quando passava uma senhora. Havia todo o tempo do Universo para marcar um gol. Podíamos esperar Dona Delfina passar com a sacola carregada de bananas, a sobremesa mais barata e amadurecida na quitanda do português à base de carbureto.

Mais tarde , não muito, quando calçaram a rua, caminhando por ela à noite, a luz dos postes faiscava o granito a cada passo cumprindo-se a canção: "Ladrilhada com pedrinhas de brilhantes para o meu amor passar..."

E eu sentia o gosto das estrelas no céu da minha boca.

Acredito que ainda existam ruas e gentes como aquelas. Deve haver sim . Precisa haver. É ali que nasce a humanidade.

É ali que se educa para a humildade e solidariedade.

Percebo-me a pensar na minha neta, prisioneira de um computador num bairro nobre de São paulo...vou perguntar-lhe se já pisou na rua descalça, ou se já pulou amarelinha na calçada riscada com giz.

Quando o tempo vier e ela amadurecer provavelmente recordará não de ruas de terra, mas de vias cibernéticas nas suas boas memórias da infância, percebendo afinal, como Drummond, que "...o Mundo não pesa mais que amão de uma criança."

Escrito Por Bemvindo Sequeira

Colaboraram: Bemvindo Sequeira; entretenimento.r7.com;

4 comentários:

  1. Emocionante esse texto!

    Pode até ser que existam ruas ainda assim, porém, que tristeza ver a maioria das crianças que não mais tem a liberdade de as ter!

    Pena mesmo! Quanto perdem!

    Sabem muito mais do que aquelas as de hoje, porém quanta cultura até inútil , comparada com a que perderam brincando, livres na rua! Adorei! ABRAÇOS, CHICA

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  2. Um texto muito belo! Até eu senti "o gosto das estrelas no céu da minha boca".
    Beijos.

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  3. Amei a crónica, tanto mais que, julgo conhecer este novo mundo cibernético e o outro, o do pé descalço. O texto fez despertar em mim um outro mundo, o das emoções.
    A comentar Baíha e a lenda, no meu blog, BRASIL: O SORRISO DE DEUS, que se vai encaminhar para ser história pós cabralina do Brasil.
    http://amornaguerra.blogspot.pt/


    Abraço

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  4. Vim avisar que acabei de publicar esse texto lá! Obriogadão! Tão lindo! Podes ver aqui:
    http://instantesaosdomingos.blogspot.com.br/2016/06/se-essa-rua-se-essa-rua-fosse-minha.html

    abraços, chica

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