segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

“Um Teatro Vazio Parece Que a Vida Foi Ontem”


Quem vê o artista em cena, sendo aplaudido, iluminado por trocentos watts de luz feérica, sorrindo e abrindo os braços em agradecimento, sendo ovacionado pelo seu público...não imagina a sua solidão.

Eu pessoalmente passo durante minhas apresentações solo por dois grandes momentos de pura solidão. De puro "estar comigo".

O primeiro é entre o segundo e o terceiro sinal ( Os minutos que antecedem a abertura do pano).

Saem todos que te acompanham. Todos estarão em seus postos: iluminador, contra-regra, sonoplasta, camareira, todos.

E só eu na coxia contando os minutos, em absoluto silêncio, ouvindo o murmúrio da platéia enquanto meus olhos vagueiam pelos espaços escuros dos bastidores.

É quando eu me pergunto como tornei-me isso: um profissional das artes cênicas. Como passei já quase meio século da minha vida nessa caixa de ilusões que é o teatro.

Sei que dali a pouco terei que entrar sob as luzes para conquistar o público a cada noite. Sei a tarefa que terei pela frente. Mas nada é mais profundo e ameaçador que o mergulho que dou dentro de mim mesmo naqueles momentos que antecedem minha entrada.

O outro desesperante e grande momento de solidão acontece após os aplausos. Quando a cortina se fecha e depois da troca no camarim retorno ao palco para sair do teatro.

A sala está completamente vazia. O público a esvazia em minurtos. Antes lotada, aplausos, gargalhadas, vida! Em minutos apenas cadeiras vazias, semelhando ossos secos do que antes fora vida. Luz de serviço e ninguém. Os que te esperam estarão no saguão pra te abraçar.

Mas do camarim até o saguão é a passagem da solidão.

É quando você percebo que o poder não é meu. Que o poder me atravessa , usa-me como meio, mas não fica comigo.

E assim, decaído, reduzido à mísera condição terrena atravesso o palco e a fileira das cadeiras vazias lembrando da frase do grande Procópio ferreira:

- "Um teatro vazio parece que a vida foi ontem."

Escrito Por Bemvindo Sequeira

Colaboraram: Bemvindo Sequeira; entretenimento.r7.com;

Nenhum comentário:

Postar um comentário

A Cia. De Teatro Atemporal agradeçe os seus comentários.