segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Não Vai Ter Peça

Eu em "Gracias a La Vida" , 1976, na luta contra a intolerância.

Leio que em Los Angeles um espetáculo foi suspenso porque da platéia um sujeito gritava palavrões e lemas homofóbicos.

A peça, uma obra prima da dramaturgia mundial: "Gata em teto de Zinco Quente", de Tenesse Williams.

Lá pelas tantas um dos atores esquentou-se desceu à platéia e empurrou o desordeiro. Outro colega, maior ainda, pegou o sujeito pela gola e o colocou pra fora do teatro.

A temporada foi suspensa porque o produtor, num gesto de extremo zelo mercantil suspendeu os dois atores.

Ao ler a noticia lembrei-me do empastelamento do espetáculo "Roda Viva" em SP durante a Ditadura com espancamento dos atores e do público.

Mas lembrei-me mais ainda: O ano era 1976. Ditadura de Geisel. O Teatro era o Vila Velha, em Salvador, Bahia. A peça era "Gracias a La Vida" de Isaac Chocrón. Eu protagonizava.

Teatro cheio. Peça política, contra a repressão.

Lá pelas tantas um espectador gritava da platéia. Passava mais um tempo e o sujeito tornava a berrar. Qualquer palavra incompreensível. Ele queria era gritar.

Desci à plateia, luzes acesas, identifiquei o cidadão e tratei-o com meu bom humor de sempre e amenizei o fato. Sabia que estava pisando em ovos, mas com muito zelo fiz o meu número, disse à platéia que ele era parte do espetáculo, que pagávamos à ele pra toda noite fazer aquilo, etc. etc. E consegui levar até o fim do 1º ato.

Intervalo. Chamamos a Polícia Militar para retirar o sujeito do teatro. E qual a surpresa: ele puxou uma carteira de Major da PM baiana e o tenentinho teve que se submeter à ele enquanto aguardava outro major ou coronel pra resolver o impasse hierárquico.

Aí percebemos: o teatro estava com pelo menos mais 20 homens policiais à paisana com cassetetes prontos a empastelar o espetáculo. Prontos a espancar os atores e o público.

Meu bom humor, meu jogo de cintura ao descer à platéia livrou- nos de algo muito pior.

Chegado o superior militar o sujeito retirou-se do teatro. Fomos ao palco e então denunciamos a presença dos provocadores na platéia. Tudo de luzes acesas.

à luz geral sumiram todos os trevosos. E aí continuamos com a apresentação.

Hoje, 38 anos depois vejo a estupidez acontecendo, não no Brasil da Ditadura, mas na terra da Democracia - se é que assim pode ser chamada.

A intolerância continua. Tem outros atores, mas o drama continua.

Escrito Por Bemvindo Sequeira

Colaboraram: Bemvindo Sequeira; entretenimento.r7.com;

3 comentários:

  1. Primeiro parabenizo-o pelo jogo de cintura, pelo bom humor que conduziu a situação. Lamentável... tanto o que houve há 38 anos quanto na terra da democracia. Fato é o ser humano, passa e passa o tempo, e ele não evolui. Abração!!!

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  2. pois é: o mais triste, é que os que combateram a ditadura antes, hoje desfacelam o país em corrupção, roubo e desonestidade.

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