segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Conselho aos Jovens Artistas de Hoje

1ª Peça "Joana em Flor" : Lia Maria, eu e Reynaldo Gonzaga. Da inexperiencia em 1966 até os dias de hoje "confesso que vivi".

Tinha eu 18 anos quando dediquei-me à minha primeira peça teatral. Como ator.

Foi em 1966 e mesclávamos o discurso dramatúrgico com o discurso contra a Ditadura e pelas Liberdades Denocráticas.

Naquele tempo poucos jovens desejavam fazer teatro. Era maldito... Ser modelo então, nem pensar. O mercado era mínimo de chances de trabalho.

Raríssimas família admitiam que seus filhos seguissem as artes cênicas. Hoje, mal nascem, as mães empurram os bebês para as agências. (risos).

Ator era muito mal visto. Marginal. Quando chegávamos em turnê numa pequena cidade devíamos nos apresentar ao Delegado da Polícia local e informar da nossa presença na Cidade. Para o caso de que durante nossa acontecessem furtos, ou estupros, tínhamos que agir assim assim para nos isentarmos de culpa ou suspeitas.

Meus irmãos, todos bem mais velhos censuravam-me, diziam que eu não seria nada na vida já que havia parado de estudar na 8ª série; que eles iam ter que me sustentar como mendigo, que eu morreria cedo...e terrores mais e tais.

O restante da família dizia que eu era maluco, no que não estavam errados (risos).

Veio a Bahia, o projeto de descentralização, de fazer teatro fora do eixo Rio_SP. Sofri muito. Passei muitas dificuldades. Mitas vezes faltou a comida. Mas não desisti.

Cada um escolhe prioridades. Na minha profissão jamais escolhi ganhar dinheiro, ficar rico. Sempre quis representar, criar,questionar...essa era a minha prioridade: viver!

Não sou rico de dinheiro, sou rico de vida. Abastado sim, próspero sim, Um prêmio que a maturidade profissional me deu.

Nestes 48 anos de profissão fiz e vi de tudo. Representei na Europa e na América, em todo o Brasil. Trabalhei com os grandes nomes do teatro mundial e nacional. Ganhei muitos prêmios. Dei palestras, conferências em várias línguas em diversos países...ensinei a muitos iniciantes...escrevi livros. Fui biografado...Na TV fiz o que chamam de sucesso em várias novelas. Ajudei a fazer a Lei que regulamentou a Profissão. Meu Registro Profissional é o número 01 das Folhas 01 do Livro 01 da DRT. Éramos três números 01: Lelia Abramo em, Sp, Vanda Lacerda no Rio e eu na Bahia.

Hoje, cada vez mais no exílio edipiano vejo minhas vitórias. O que antes pareciam derrotas eram preparativos para a colheita do bom trigo. E ainda hoje surpreendo-me ao sentir que uma mão invisível nos guia quando confiamos na vida.

A família, morta, e os sobreviventes em sua maioria distribuindo a bondade burguesa e os conceitos medíocres dos que não ousaram viver, não ousaram vencer.

Por eles, como dizia Rauzl Seixas , eu estaria dando pipoca aos macacos.

Você, jovem, se confia no seu potencial, não esmoreça. Tome atitude. Persevere.

Não tenha medo de estar errado. Quando alguém se aproximar com você com palavras doces e apontando fáceis caminhos recomendo-lhe a leitura do poema "Cântico Negro" de José Régio.

Do muito e pouco que já vivi posso dizer a vocês: tudo que fazemos tem um propósito, que até desconhecemos. A vida é um mistério que vai se deslindando quanto mais se aproxima do fim.


Escrito Por Bemvindo Sequeira

Colaboraram: Bemvindo Sequeira; entretenimento.r7.com;

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