segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Raulzito, a Metamorfose Ambulante


Raulzito. Era assim que a gente o chamava na Bahia.

Muito antes do sucesso nacional, muito antes de virar mito de uma juventude da Sociedade Alternativa já era inquieto.

Eu o conheci pela primeira vez em 1970.

Estava eu com o Maestro Carlos lacerda, folcórica figura baiana, grande maestro da terra de Castro Alves, no Barcaninha. Uma casa noturna da orla de Salvador.

Uma orla cuja urbanização acabava bem antes do Barcaninha, que situava-se entre a Boca do Rio e Piatã.

Havia a sede do Sport Clube Bahia, em seguida um grande vazio com pequenos lotes para só depois encontrarmos a Itapuan de Caymmi.

Eis que chega aquela figura estranha, magra, de mal cuidada barba. Raul Seixas.

Uma festa entre os músicos presentes - então a história da MPB baiana : Ederaldo Gentil, Edil Pacheco, Vevé Calazans, Waldir Serrão e o próprio Lacerda.

Raulzito tazia consigo uma maleta, o que o tornava mais parecido com um fiscal, ou um auxiliar de contabilidade que própriamente um roqueiro.

A dado momento , aberta a maleta ,revelou- se o conteúdo: remédios! Fármacos os mais variados. Não era uma metamorfose ambulante, era antes uma farmácia ambulante.

Havia de tudo, de antiácidos a ansiolíticos, de antiinflamatórios a bandeides.

Retirou o que naquele momento julgava vital para a sua sobrevivência (era mesmo hipocondríaco) e em seguida todos os presentes reviraram sua maleta, tirando dela seu quinhão: de lexotans e a melhorais.

Dezenove anos depois deste encontro, na manhã do dia 21 de agosto de 1989, Raul Seixas foi encontrado morto sobre a cama , por volta das oito horas da manhã em seu apartamento em São Paulo, vítima de uma parada cardíaca.

A prática antiga de automedicação, aliada à seu alcoolismo, e agravada pelo fato de ser diabético, e por não ter tomado insulina na noite anterior, causaram-lhe uma pancreatite aguda fulminante.

Um louco, um visionário, um gênio...não há - ainda bem - classificação para aquele que se autodenominou com muita razão uma "metamorfose ambulante".

Escrito Por Bemvindo Sequeira

Colaboraram: Bemvindo Sequeira; entretenimento.r7.com;

3 comentários:

  1. Que bacana, ter conhecido o Raul Seixas! Deve ter sido um momento e tanto...

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  2. Há pouco tempo vi uma reportagem na TV, mostrando como era o Raul. Evidente que ele era um cara espontâneo, despreocupado com o que dizia e como se comportava.
    Metamorfose Ambulante vai existir sempre.
    Abraços!

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  3. cada louco com sua mania não é?
    Mas este louco nos deixou um acervo musical riquíssimo
    Se ele fez algum mal foi para si próprio por levar uma vida fora dos padrões comportamentais
    Para nós ficou a genialidade da sua música
    Tenha um bom dia
    Um abraço

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