segunda-feira, 6 de julho de 2015

Que Gente é Esta?

"Eu nunca havia visto você sem o uniforme."

Ouvi esta frase ontem à noite, assistindo ao filme "The Help" que trata das empregadas domésticas negras americanas, e que concorreu em várias categorias ao Oscar.

O cérebro da gente é muito curioso. Além de fantástico. Ele opera por associação.

Imediatamente ao ouvir a frase lembrei-me do fato ocorrido há alguns anos atrás: havia sido convidado para assistir ao Dia D. Uma grande concentração evangélica na Praia de Botafogo.

Tive que ir à pé , da minha casa no Jardim Botânico até lá. As ruas completamente engarrafadas. Centenas de Õnibus transportando fiéis engarrafavam todo o trânsito.

Quando cheguei mais próximo do evento era um formigueiro humano. Milhares de pessoas dirigiam-se a pé para o local. No total 2.500.000 de pessoas reunidas de Botafogo até o Flamengo.

Na porta de um bar saiu um cidadão, destes que fazem do boteco pé-sujo escritório e moradia , olhou aquela gente e disse em alto tom:

- De onde veio esta gente:? Caiu do céu?

Olhei em volta e constatei a surpresa dele. Era a mesma que a minha: uma gente que eu nunca havia visto. Um gestual diferente, roupas diferentes, rostos diferentes do cotidiano.

Onde esteve aquele povo durante toda a minha vida que eu nunca o vira. Estranhos a mim. Ou eu estranho a eles?

Foi então que percebi. Eram os excluídos. Os uniformizados. Aqueles que a gente só vê de uniforme. Não vê como cidadão, sequer como pessoa humana.

São o uniforme que vestem. Personagens subalternos de uma sociedade restritiva. Porteiros, bombeiros, soldados, empregadas, balconistas, caixas, padeiros, office-boys, recepcionistas, babás, guardas,auxiliares de enfernagem, faxineiros, garis...

Só conhecemos seus uniformes. Do alto da nossa presunção, instalados em poltronas fofas, ou cadeiras executivas falamos de povo brasileiro como se o conhecêssemos.

Não sabemos nada sobre nossos próximos, aqueles que trabalham anônimos, sem face, mas com uniformes. Exatamente isto: uniformes - uma só forma.

Por isto o espanto do quase bêbado à porta do bar: Caíram do céu? Porque para ele, e para os que nunca haviam visto este povo sem uniforme, eles eram como Ets.

Pode não parecer, mas a isto chama-se exclusão, discriminação. Veladas. Um véu vela nossa consciência.

Mas são eles os que votam, os uniformizados... são eles que surpreendem os elitistas, os analistas de plantão, os bêbados e os equilibristas, como eu.

Não têm face...nomes...são apenas uniformes. Caíram do céu ameaçando velhos valores.

PS.: Foi de forma infleiz que a querida Danuza Leão esceveu em sua coluna que perdeu a graça ir a Paris ou nova York e dar de cara com o porteiro do prédio. Pois é...sem uniformes são pessoas, cidadãos...Danuza deve estar se perguntando: de onde veio esta gente? Caiu do céu? kiakiakiá

Escrito Por Bemvindo Sequeira

Colaboraram: Bemvindo Sequeira; entretenimento.r7.com;

3 comentários:

  1. Belo texto que convida à reflexão! Tantas verdades...abraços,chica

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  2. Nunca pensei nessa do uniforme, uma vez que ter emprego com uniforme era o ideal de todos os meus conterrâneos, de meados do século passado. Tudo se poderia equiparar, assim como, ao cabouclos, inclusive eu. Como ainda hoje, os meus sonhos eram muito largos.
    A tal ponto, sempre rejeitei empregos de farda, embora sempre tivesse de aceitar menores remunerações, eu de fato não nascera para usar farda,
    Abraço

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  3. Caro amigo

    Em um país tão desigual,
    onde poucos detém o poder econômico,
    político e midiático,
    nós que estamos dos outro lado
    assustamos com os nossos sonhos
    aqueles que não desejam,
    que não querem,
    e que não suportam as mudanças
    na direção de uma sociedade mais justa
    e igual...

    Sua vida é preciosa para mim...

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