segunda-feira, 4 de maio de 2015

O Dia em Que Vinícius me Torrou a Paciência


Grande pessoa, grande poeta...quanta saudade da sua presença no Rio de Janeiro...no Brasil...

Agora é rua de Ipanema. Cada vez que caminho pela Vinícius não sei se estou andando na companhia deste amado, ou pisando no poeta.

Conheci Vinicius na Bahia. Já o havia encontrado no Rio.

Mas foi quando moramos na Bahia que convivemos mais.

Hoje no seu centenário de nascimento todas as homenagens serão poucas para este homem que só nos deixou coisas boas e lembranças maravilhosas.

Mas houve um dia em que ele me encheu o saco.. rsrsrsrs


O fato foi na década de 70. Em Itapuan onde morava o poeta.

Tinha eu menos de trinta anos. Um jovem ansioso e descuidado como geralmente são os jovens sadios, sem verminoses ou anemias...rsrsrs.

O poeta havia escrito uma peça, com dois personagens apenas : Maria e João. E convidou amigos, entre eles eu, para uma leitura do texto na sua casa.

Fui de boa, achando que ia ser uma coisa dinâmica, muito interessante que junto com outros colegas leríamos o texto e nos distrairíamos muito.

Que surpresa!!! A peça tinha umas sessenta laudas. Dois personagens...que o Vinicius fez questão ele mesmo de ler, com aquela voz calma num tom monocórdio.

Em cada fala ele nomeava qual personagem a dizia: tipo "Maria fala... - " "João fala... -"

Regada a uísque a leitura ia ficando cada vez mais pastosa na voz do poeta, e cada vez mais chata e insuportável. Nenhuma dinâmica. Nada.


E a peça - que não lembro o nome - ia se tornando um pesadelo pra mim. Ficava olhando o texto retido em suas mãos e imaginando pelo maço de folhas quantas laudas ainda faltava para terminar, e a cada folha virada parecia crescer o volume de páginas . Não conseguia deixar de pensar no mito de Sísifo eternamente carregando e descarregando uma pedra morro acima. rsrsrsrs.

Ali eu aprendi que mitos são para continuar sendo vistos de longe pra continuar sendo mitos, porque no dia a dia os encantamentos são quebrados.

Então ponho Vinicius pra tocar...leio e declamo Vinicius...vejo filmes sobre Vinícius...e cada dia mais o admiro...mais o reverencio...mas nunca me esqueço desse dia em que o Poetinha me encheu o saco com aquele delírio dramatúrgico.

Escrito Por Bemvindo Sequeira

Colaboraram: Bemvindo Sequeira; entretenimento.r7.com; viniciusdemoraes.com.br

3 comentários:

  1. Entendo, nossa, eu também me encheria, rsrs, não consigo ficar ouvindo sem poder agir, ainda mais com um tempo longo, cruzes!
    Amei ler aqui.
    Abraços!

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  2. Vinícius foi uma pessoa rara. Gostei da história passada com ele e compreendo o enfado...
    Beijo.

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  3. Concordo: mitos são para serem apreciados de longe, ou perdem o encanto. jamais desejei conhecer alguém famoso, nem mesmo o Freddie Mercury, que eu adorava.

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