segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Olhai os Lírios dos Campos

Seguindo a filosofia dos posts desta semana relato o fato:

meu pai sempre foi um homem muito trabalhador, generoso, e jamais o vi queixando-se da vida.

Mas nunca juntou dinheiro. Motivo de angústia para minha mãe, que estressada cumpriu a genética familiar e faleceu cedo, aos 49 anos.

Aos 53 anos meu pai casou-se em segundas núpcias, e ainda teve mais tres filhos.

Aos 61 anos meu pai teve um derrame que o impossibilitou por um bom tempo.

Não se queixou, contador, trabalhou escriturando como pôde e manteve a família.

Jamais se queixou.

Para angústia de alguns, entre eles uma muito querida irmã, que propôs fazermos uma poupança para poder custear as despesas com o funeral quando ele morresse, já que ela não acreditava que ele deixaria qualquer dinheiro para tal.

Não concordei com o agouro e a idéia foi-se com ela, que estressada cumpriu a genética familiar e cedo faleceu, também aos 49 anos.

Meu pai sobreviveu a ela.

Aos 87 anos, após seu terceiro derrame, chamou-me e disse-me:

-Filho, estou cansado de viver. Já não consigo mais trabalhar. A mão não obedece mais. Não consigo mais escriturar. Eu vou morrer.

E no dia seguinte contradizendo as anteriores previsões de indigência, internei-o no Hospital Central do Exército - um dos filhos tornara-se Oficial de Patente- teve todos os tratamentos e cuidados sem onerar qualquer familiar, e ao morrer, teve da Arma direito a caixão e flores, que escolhi com apuro de um álbum que me foi mostrado pelo Oficial que cuida deste setor.

Pois que , quarenta e cinco dias depois de internado, consciente e entregue á Vontade essencial, falecia.

E ironia maior, ainda deixou troco deste funeral, às expensas do Exército, pois a quantia destinada às exéquias não fora de todo consumida.

Ao pé da sua sepultura lembrei-me dos que desesperavam-se dizendo que era preciso fazer uma poupança para custear sua velhice e seu enterro.

Esta irônica lição de viver que me deixou o pai, carrego comigo pela vida, e creiam-me : sempre lembro-me dele quando ouço falar dos lírios do campo.

Escrito Por Bemvindo Sequeira

Colaboraram: Bemvindo Sequeira; entretenimento.r7.com;

2 comentários:

  1. Um texto muito interessante. As pessoas quase sempre nos surpreendem quando menos esperamos...
    Beijo.

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  2. Olá Bemvindo! Fiquei muito feliz com a tua visita e amável comentário. Ao ler o teu belo e bem coordenado relato, lembrei-me dos pegas que tenho com a minha mulher, quando afirmo que as coisas acontecem quando chega o dia e a hora para acontecer.

    Estou retornando, e dizer que gostaria de poder contar com a tua amizade.

    Abraços,

    Furtado.

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