segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

A Perversão da Cultura

Eu, no teatro de rua. Salvador, 1977. Ditadura Militar, mas ao fundo o ônibus já anunciava a Liberdade.

O assunto requer atenção e delicadeza no trato. É perverso e por demais controverso. Já foi cantado em prosa e verso. Tem verso e reverso. E sobre ele converso:não é de hoje que venho demonstrando a perversão da Lei Rouanet para a Cultura.

Avaliza projetos culturais que serão desenvolvidos com a renúncia de dinheiro do Imposto de Renda devido pelas empresas. Dinheiro que deve reverter em usufruto do povo brasileiro.

Mas nem por isso as produções advindas deste dinheiro barateiam os preços finais dos produtos culturais. A mais das vezes é o contrário: oferecem alguns espetáculos, ou vagas para jovens carentes ou do ensino público e o MINC dá-se por satisfeito.

A distorção, para se ter um exemplo passa pelo seguinte entre outros quejandos:a Feira de LIvros de Paraty, a FLIP, evento da maior importância nacional e internacional recebeu o direito de captar R$ 5.900.000,00 para a sua realização. Uma cantora de axé recebeu o mesmo aval de R$ 5.800.000,00 para sua tournée pelo Brasil. E há um musical cópia da Broadway que recebeu o aval para captar R$ 8.500.000,00 para estrear num teatro comercial do Rio.

Podem estar certos que este dinheiro a ser captado não trará benefícios para as camadas de menor poder aquisitivo da população. Destinar-se-á às elites do país.

Ótimo que um espetáculo receba oito milhões e meio para sua produção, mas com este dinheiro pelo menos 200 grupos de teatro do País montariam suas produções à razão de 40.000,00 cada. E com certeza em sua maioria absoluta vivificariam a cultura nacional. Que sejam captados os 8 e meio, mas que haja projetos dotando mais 8 e meio para os grupos amadores, alternativos, produtores culturais autônomos, e pequenas empresas.

Mas, como dizia meu baiano amigo, Geraldo Machado: - "Bemvindo, a burguesia também paga impostos, tem direitos."

Concordo com ele, mas a Lei tem mais furos que um chuveiro. A começar pela discrepância dos recursos autorizados e depois passando pelo fato de que as empresas que podem financiar projetos só desejam faze-lo com medalhões e nomes estelares que siginifiquem retorno à marca. Até aí, tudo bem também, assim funciona o sistema: capitalismo. O perverso é que se transfere para o mercado a questão cultural num claro gesto de fracassada economia neoliberal.

A perversão da Lei, criada para incentivar cultura, denuncia a falha de planejamento cultural. Não há nenhum amplo e ousado, moderno e competitivo programa que ampare ou financie a iniciativa cultural popular e espontânea. E quando o há não são milhões, são migalhas distribuídas de forma tão burocrática que dificulta o acesso aos poucos "iniciados" que conseguem entrar nestes editais. O próprio programa de tv do PT levado ao ar anteontem fala de Educação, Saude, Moradia, Emprego, Crescimento...e não fala de Cultura.

Os chamados "Pontos de Cultura", por exemplo, deveriam já alcançar a casa dos milhares...as manifestações culturais da periferia, de caráter popular e inclusivo deveriam ser muito mais que um outro "nós do morro", ou um ou outro projeto financiado por empresa estatal. O que existe na área é muito pouco, quase nada.

Esta inconsistência de projetos, esta incoerência na superestrutura cultural do País é um vácuo que não acompanha a inclusão social que vem se processando em nosso projeto de Nação.

Escrito Por Bemvindo Sequeira

Colaboraram: Bemvindo Sequeira; entretenimento.r7.com;

Um comentário:

  1. É igual em todo o lado. Os benefícios vão sempre para os mesmos... A cultura nunca interessa ao poder.
    Um abraço.

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