segunda-feira, 19 de agosto de 2013

CÓPIA, A EFICIÊNCIA DO INCAPAZ


Leva-se anos até que consigamos estabelecer um nível de aceitabilidade do nosso trabalho, quantas e quantas vezes somos obrigados a refazer e refazer o que já foi por várias vezes refeito? E, quantas críticas nós tivemos que engolir a seco, até mesmo aquelas que não tinham nenhum fundamento? E pra quê? Para depois encontrarmos nosso trabalho copiado e vendido como algo inédito. Parece-me injusto, não é mesmo?

Não consigo entender o que faz alguém copiar uma obra alheia, a subscrevendo como se sua fosse. Talvez a vontade de receber os louros por aquilo que ele jamais conseguiria. A arte da criação traz incutida nela, os traços de quem a fez e por mais que alguém queira chancelá-la como sua, não conseguirá por muito tempo, pois não se consegue copiar uma obra inteira. Esses só conseguirão receber o atestado da eficiência do incapaz.

Incapaz não apenas por não ter a capacidade de produzir algo realmente seu, mas incapaz de compreender que a obra de um artista é única. Nela está marcada o pensamento, os anos de estudo e de dedicação, a alma que o artista coloca em cada uma de suas obras, sejam elas, uma poesia, uma música, uma peça de teatro, um texto literário, ou qualquer coisa escrita que nasça de uma criação artística.

O conceito de se levar vantagem em tudo, também pode justificar atitudes desse tipo, pois, a necessidade que as pessoas tem em serem importantes, mostrarem-se cultas e altamente capazes de produzirem algo de grande valor, é enorme. É a pequenez do Ser humano nos dias de hoje. Plagiar uma obra artística é o golpe mais baixo que um artista pode sofrer, pois é como alguém lhe roubasse seus pensamentos, sua alma.

Mas, como evitar isso? Nos dias de hoje é muito mais difícil, pois, com o advento da internet, onde se pode publicar tudo quanto é tipo de texto, o artista acaba ficando vulnerável e muito mais exposto a ter uma obra sua copiada por alguém. Porém, a internet também funciona como um via de mão dupla e, através dela, o artista pode descobrir se sua obra foi ou não copiada. Não é muito, mas pelo menos é uma arma de defesa.

Lutar contra o ataque daqueles que possuem a eficiência do incapaz, sempre será uma tarefa muito complicada para o artista, ás vezes, ele nunca saberá se sua obra foi copiada ou não, pois um artista de verdade está muito mais preocupado em criar, que não tem tempo de descobrir o que fazem com a obra dele. A criação artística, ainda mais quando ela é bem sucedida, sempre despertará a cobiça do incapaz.

Escrito por Paulo Sacaldassy

Colaborou: Poucas Palavras de Paulo Sacaldassy; Foto: Espetáculo "A Família Addams"

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

A INQUIETAÇÃO DO ARTISTA


O artista é, por sua própria essência, um ser inquietante, ele mexe, cutuca, revira, tira a ordem das coisas, experimenta, inventa, arrisca, inova, aposta, se joga no abismo escuro sem paraquedas, choca, provoca, surpreende, transforma, faz o faz-de-conta, a realidade e a realidade, um faz-de-conta. O risco é o companheiro da alma do artista. E não há um só artista que aceite pacientemente, a acomodação das coisas.

Essa é a natureza do artista, é o que lhe move, lhe estimula, lhe instiga, lhe absorve, lhe faz transpor o normal, o que lhe inspira, pelo qual transpira, é o que lhe vale à pena. A inquietação é seu combustível em todos os estágios da matéria e, quanto mais inquietante, mais excitante, mais estimulante, mais delirante, mais distante da lógica. E assim, o artista se atira em seus vôos cegos em busca de mostrar a sua arte.

Mas, ás vezes, os vôos cegos, são tão cegos que o artista perde a mão do que é ser um artista inquietante e acaba por se mostrar incompreendido por abusar do risco. O fio da navalha da inquietação corta a audácia de quem quer tão somente ser inquietante gratuitamente. A provocação que instiga e inquieta a platéia, também é fruto de muito trabalho, pois, só quem conhecer a ordem é que sabe fazer a desordem.

A aposta simples na inquietação do público como forma de apresentar a sua arte, muitas vezes põe por terra uma idéia promissora, por isso, por mais inquietante que seja a alma de um artista, não é assim uma tarefa das mais confortáveis para amadores e inexperientes, pois, tirar o público da inércia de espectador ao ponto dele se sentir incomodado, inquietado, provocado, sem a habilidade necessária, é dar um tiro no pé.

É bom que o artista, principalmente aqueles que estão alçando os primeiros vôos, brinque com suas idéias, aprenda a subverter a ordem das coisas, experimente a sua inquietação como um ser humano incomodado pela inércia da vida, e teste misturar tudo isso á uma dramaturgia forte, contundente, que cutuque o público do começou ao fim, sem se tornar cansativo, repetitivo ou até mesmo, incompreendido.

Ousar é bom, mas saber dosar também é, portanto, o artista sempre será esse ser inquietante, que mexe, que cutuca, que provoca, mas, o importante, é que ele conheça os riscos de sua audácia e se prepare para sofrer as críticas quando a sua inquietação não passar de conflitos internos e de idéias desconexas em busca de um re-alinhamento.

E que nenhum artista se sinta incomodado com essas minhas poucas palavras, pois, é que a minha alma inquietante de artista quis apenas aqui se manifestar. A inquietação do artista é assim, chega, não pede passagem, faz bagunça em tudo e não deixa nada no seu lugar, há quem goste, há quem não goste, mas não há o que se possa fazer.

Escrito por Paulo Sacaldassy

Colaborou: Poucas Palavras de Paulo Sacaldassy; Foto: Raul Gazolla na peça "Pressão Alta"