segunda-feira, 5 de agosto de 2013

A INQUIETAÇÃO DO ARTISTA


O artista é, por sua própria essência, um ser inquietante, ele mexe, cutuca, revira, tira a ordem das coisas, experimenta, inventa, arrisca, inova, aposta, se joga no abismo escuro sem paraquedas, choca, provoca, surpreende, transforma, faz o faz-de-conta, a realidade e a realidade, um faz-de-conta. O risco é o companheiro da alma do artista. E não há um só artista que aceite pacientemente, a acomodação das coisas.

Essa é a natureza do artista, é o que lhe move, lhe estimula, lhe instiga, lhe absorve, lhe faz transpor o normal, o que lhe inspira, pelo qual transpira, é o que lhe vale à pena. A inquietação é seu combustível em todos os estágios da matéria e, quanto mais inquietante, mais excitante, mais estimulante, mais delirante, mais distante da lógica. E assim, o artista se atira em seus vôos cegos em busca de mostrar a sua arte.

Mas, ás vezes, os vôos cegos, são tão cegos que o artista perde a mão do que é ser um artista inquietante e acaba por se mostrar incompreendido por abusar do risco. O fio da navalha da inquietação corta a audácia de quem quer tão somente ser inquietante gratuitamente. A provocação que instiga e inquieta a platéia, também é fruto de muito trabalho, pois, só quem conhecer a ordem é que sabe fazer a desordem.

A aposta simples na inquietação do público como forma de apresentar a sua arte, muitas vezes põe por terra uma idéia promissora, por isso, por mais inquietante que seja a alma de um artista, não é assim uma tarefa das mais confortáveis para amadores e inexperientes, pois, tirar o público da inércia de espectador ao ponto dele se sentir incomodado, inquietado, provocado, sem a habilidade necessária, é dar um tiro no pé.

É bom que o artista, principalmente aqueles que estão alçando os primeiros vôos, brinque com suas idéias, aprenda a subverter a ordem das coisas, experimente a sua inquietação como um ser humano incomodado pela inércia da vida, e teste misturar tudo isso á uma dramaturgia forte, contundente, que cutuque o público do começou ao fim, sem se tornar cansativo, repetitivo ou até mesmo, incompreendido.

Ousar é bom, mas saber dosar também é, portanto, o artista sempre será esse ser inquietante, que mexe, que cutuca, que provoca, mas, o importante, é que ele conheça os riscos de sua audácia e se prepare para sofrer as críticas quando a sua inquietação não passar de conflitos internos e de idéias desconexas em busca de um re-alinhamento.

E que nenhum artista se sinta incomodado com essas minhas poucas palavras, pois, é que a minha alma inquietante de artista quis apenas aqui se manifestar. A inquietação do artista é assim, chega, não pede passagem, faz bagunça em tudo e não deixa nada no seu lugar, há quem goste, há quem não goste, mas não há o que se possa fazer.

Escrito por Paulo Sacaldassy

Colaborou: Poucas Palavras de Paulo Sacaldassy; Foto: Raul Gazolla na peça "Pressão Alta"

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