segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

A DIFÍCIL ARTE DE VIVER DE ARTE


A sensibilidade apurada, a visão crítica sobre a vida humana e a capacidade de emprestar a alma e o corpo para uma personagem sempre foram características que fizeram um artista ser conhecido e respeitado, mas hoje em dia ser artista anda tão difícil! Sabe o que é? A concorrência está brava, eu diria até, um pouco desleal, pois o que tem de gente se achando e se dizendo artista, é uma coisa de louco!

Está cheio de gente na mídia que se diz artista, artista de quê? Do silicone da hora? Qual a arte que eles fazem? Posar nua à beira mar agora também é arte? E desfilar bíceps e abdomens torneados, é arte do quê? O que eu não entendo é porque a mídia despende tanto tempo e importância à esse tipo de celebridade, os tratam como se fossem artistas consagrados. Coitado é do artista de verdade que estuda e se aprimora para viver de sua arte.

Antes o artista tinha o seu valor, sua arte era a sustentação da sua carreira, era a sua arte que fazia a diferença, agora, o artista de verdade, aquele que construiu a história do cinema, do teatro, da televisão brasileira e que hoje está no esquecimento, quiçá até em dificuldades financeiras, nem sequer é lembrado por essa mídia, interessada apenas na vulgaridade, na futilidade, na banalidade de gente que usa o nome de artista, eles não são ninguém!

Batalhar de sol a sol a sua carreira, seja de músico, de ator, de diretor, de cantor, de bailarino, de palhaço é tarefa dura como a de qualquer outro trabalhador, pois viver de arte, nunca foi fácil e hoje, ainda mais difícil. A grandeza de um artista que encantava aos olhos das pessoas comuns, anda espezinhada e jogada no mesmo balaio de gatos dessa gente que vive na mídia, se diz artista, mas não faz arte nenhuma.

Não sei onde isso vai parar, nem sei se um dia isso vai parar, mas a verdade é que para ser artista está cada vez mais complicado, o espaço quase sempre escasso, hoje em dia é quase nenhum e a valorização de quem tem uma arte para mostrar é cada vez menor, pois parece que a arte nem é tão importante assim, basta um par de seios, um escândalo, ou um babado qualquer, ai sim tudo fica mais fácil.

Que cada um tem o direito de ganhar a vida como bem quer, isso não se discute, o que deve ficar bem claro é que essa gente que circula nas revistas, nos portais de internet, que plantam notícias, vivem de fofocas, da exposição de seus corpos e desfilam suas futilidades aos quatro cantos, podem ser o que elas quiserem ser, mas por favor, parem de dizer que são artista, ok? A vida de artista é muito dura para vocês, vai tomar demais o tempo precioso de suas vidas e vai lhes dar muito, mas muito trabalho.

Feliz Natal e Feliz 2014.

Escrito por Paulo Sacaldassy

Colaborou: Poucas Palavras de Paulo Sacaldassy; Foto: Rodrigo Matheus em "Gravidade Zero"

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

A CULTURA PRECISA SER DESCENTRALIZADA


Nos rincões do Brasil há muito que fazer, falta educação, falta condição para uma vida digna, falta tratar o brasileiro como filho da terra e acima de tudo, falta levar esperança a quem quer uma razão pra viver. E como fazer isso? Levando arte e cultura para cada canto deste país. Arte e cultura não podem ser privilégios dos grandes centros.

Mais e mais o povo está sedento por arte e cultura, mas elas quase não chegam aos pequenos lugares, ou quando chegam são apenas momentos de entretenimento. É preciso mais. A cultura precisa ser descentralizada e incentivada, pois muitos “dons quixotes” lutam diariamente contra moinhos de ventos tentando em vão, levar um pouco de cultura.

Como seria mais fácil se os incentivos chegassem até esses “dons quixotes”, mas a cultura é centralizada, os recursos são centralizados e o povo que mais precisa, fica lá, esquecido, vivendo numa ignorância cultural, sem esperanças e sem conhecer possibilidades que permitam alçar grandes vôos. Um país só será inteiro se todos tiverem as mesmas opções.

Parece até um contrassenso, mas onde haveria de ter mais incentivo para divulgar e transmitir cultura e arte é aonde se chega menos verbas. Não se pode tratar como iguais, regiões com tantas diferenças, é uma deslealdade. Incentivar manifestações culturais em regiões menos favorecidas, devia fazer parte de um projeto específico.

É claro que algumas iniciativas, até já foram tomadas e ainda são tomadas aqui e ali, mas descentralizar a cultura do jeito que surta algum resultado á médio prazo, ainda está longe de acontecer. Essas poucas iniciativas são pequenos sopros que balançam os pequenos moinhos de ventos com os quais lutam todo dia, esses tantos “dons quixotes’

A arte e a cultura não vão resolver a vida dos habitantes dos rincões de país, nem melhorar as condições de suas vidas, pois a dignidade de uma pessoa custa bem mais do que isso, mas levar arte e cultura vai fazer com que o povo perceba que existem outros caminhos para se trilhar. A cultura e arte engrandecem o cidadão, mesmo que ele nem se dê conta disso.

Portanto, a luta para descentralizar a cultura e a arte, deve ser uma bandeira, não de guerra, mas de unificação, isso mesmo, unificação por um povo culto, que forme de fato, uma grande nação. Talvez isso seja utopia e eu nem tenha percebido que apenas sou um “dom quixote” lutando contra moinhos de vento.

Escrito por Paulo Sacaldassy

Colaborou: Poucas Palavras de Paulo Sacaldassy; Foto: Peça paulista "Licht + Licht" (à esq.) e a baiana "Namíbia, Não!" (à dir.)

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

A ARTE NÃO É IMPORTANTE?


É sempre engraçada a reação das pessoas quando você diz que faz arte, a primeira pergunta que lhe fazem é: – E você trabalha com o quê? Ora, fazer arte é o meu trabalho! Parece mentira, mas se você não é famoso, as pessoas custam a acreditar que a arte seja muito mais do que um simples “hobby”. É difícil explicar que fazer arte também é importante e é um trabalho.

Mesmo que você exerça uma outra atividade para suprir suas necessidades, visto que, pelo fato de circunstâncias alheias à sua vontade, sobreviver de arte ainda não lhe seja possível e nem possibilite uma dedicação plena de sua parte, você sabe o quanto a arte é importante, quantas privações ela te submete, tudo por você acreditar que pode viver de arte e exercer esse ofício como um trabalho.

Mas as pessoas… bem, as pessoas, sentadas em suas zonas de conforto, preocupadas apenas em nascer e morrer, se deliciam com a arte, mas não conseguem enxergar a importância que a arte tem, até mesmo para suas vidas, que se beneficiam de uma forma ou de outra com o que a arte lhes tem a oferecer, pois a arte está ali, no filme, na novela, na peça de teatro. É tão importante para vida delas que elas nem percebem o quanto.

Pois no inconsciente dessas pessoas, a arte é algo que alguém faz apenas como diversão própria e para o próximo e não como um trabalho honesto que lhes dê o sustento de vida. A idéia de trabalho industrial incutida na sociedade, onde jornada de trabalho diária, relógio de ponto, terno e gravata, macacão e ferramentas, que formam a imagem do que seja um trabalhador, contribui, e muito, para o quase desdém pelo trabalho que o artista faz.

Mal sabem essas pessoas, que os trabalhos artísticos demandam uma rotina de trabalho, disciplina, organização e longas jornadas, quase sempre exaustivas, de trabalho, seja escrevendo um texto, seja ensaiando uma peça, seja gravando um filme ou novela. Fazer arte não é diversão, é trabalho e trabalho muito duro. O fato de sua execução ser efetuada de forma e ser feita fora de uma sala de escritório, não o torna menos importante.

A arte também é essencial, tal e qual a quaisquer outras profissões, só que a arte conta com um diferencial positivo, que outras profissões não contam: a arte é um trabalho que alguém faz para oferecer ao outro, um pouco de diversão, fazer com que o dia-a-dia de todos seja mais leve e que as rotinas das pessoas preocupadas apenas em nascer e morrer, receba um pouco de sopro de vida. A arte é, ou não é importante?

Escrito por Paulo Sacaldassy

Colaborou: Poucas Palavras de Paulo Sacaldassy; Foto: Ryan Stewart, Corinne Van Ryck de Groot e Arle Michel em cena do espetáculo "Torn"

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

QUANDO A HISTÓRIA NÃO CONVENCE


Como já foi dito por muitos, contar uma história não tem receita, não adianta conhecer os caminhos das pedras, já ter feito muitas histórias de sucesso, que não vai conseguir enganar ninguém com um arremedo de história. Não se pode querer contar uma história, apenas por contar, mesmo porque, a história quem conta é a própria personagem.

E personagem rasa, com história comum, não interessa a ninguém. Quem quer saber o dia-a-dia da vida do vizinho, se já sabemos que lá, tudo é sempre igual? É assim na dramaturgia. Sem um estado de transformação com necessidade de ser modificado, nenhuma história interessa. E não adianta o assunto abordado, por mais interessante que seja, se não tiver conflito e movimentação, não vai para frente.

Há novelistas que acham que, por fazerem parte de uma indústria, podem produzir em escalas, histórias de amor que vão encantar o telespectador. Ledo engano. O que aguça o Ser humano e o faz acompanhar uma novela, é uma história que o conquiste todos os dias e, que acima de tudo, tenha o básico de dramaturgia, um conflito a ser resolvido pela personagem em um estado necessitado de transformação.

Não se pode começar uma história pelo seu tema, por um assunto, ou por algo de grande relevância que se queira contar. Tudo isso é pano de fundo na vida da personagem que vive um dilema. Falar de violência, de tráfico, de doença, seja lá qual for o assunto, se não for através do drama de uma personagem, a história não convence. Ajudar a personagem a colocar sua vida no lugar, é o que impulsionada a vontade de acompanhar uma história.

É assim no livro, no teatro, no cinema e na televisão, dramaturgia não tem muito segredo, desde que você parta do drama de uma personagem para a história e não da história, para o drama de uma personagem. E outra coisa é muito importante em uma história, tudo que a movimente, tem que, necessariamente, desaguar na resolução do conflito da personagem.

A história tem de funcionar como um aro de bicicleta, onde esses aros, mesmo separados, convergem para um mesmo raio de uma mesma roda. Histórias, que não se movimentam tal qual uma roda de bicicleta acabam por derrubar a personagem, por serem tortas e disformes. Quando se quer contar uma história que convença, temos que expor o drama, o conflito e os caminhos que farão a personagem encontrar a sua redenção.

Portanto, ao começar escrever uma história, devemos pensar primeiro no conflito da personagem e não no assunto que queremos abordar, pois é através da busca da resolução do problema de nossa personagem, que contaremos a história, uma história que convença. Caso contrário, não haverá o que salva a sua história do fracasso.

Escrito por Paulo Sacaldassy

Colaborou: Poucas Palavras de Paulo Sacaldassy; Foto: Kiko Marques, Denise Fraga, Júlia Novaes e Kauê Telloli em cena do espetáculo "Sem Pensar"

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

POR QUE ENSINAR TEATRO?


Tenho amadurecido durante os últimos anos a idéia de como seria salutar, se fosse criada a disciplina “Teatro” nas escolas brasileiras, já até escrevi sobre isso há tempos atrás, mas como nos dias de hoje o que impera é um tal cinismo travestido de politicamente correto, penso que ensinar Teatro nas escolas poderia contribuir para desmascarar toda essa hipocrisia que nos cerca.

Vivemos fantasiando um mundo que não existe nem em contos de fadas, e este mundo é fruto dos comportamentos frustrados, inseguros, preconceituosos, egoístas e desrespeitosos de uma população que está muito mais preocupada no seu bem estar e usa do cinismo para deixar as coisas do jeito que menos a incomode. E onde o ensino do Teatro entra nisso? Justamente como um antídoto.

Temos que aproveitar a magia que envolve o Teatro para trazer a criança e o adolescente para este universo, pois além de incutir neles, a oportunidade de conhecimento da cultura e da história do mundo, podemos mostrar à eles, sem cinismo e sem hipocrisia, que uma população é formada de pessoas diferentes, que devem ser respeitadas e não enquadradas em modelos de comportamentos que julguemos ideal.

O Teatro, como a arte que imita a vida, é capaz de mostrar e ensinar a criança e ao adolescente, através dos dramas e do humor que são retratados em cena, que a vida ideal é muito diferente desta que o tal politicamente correto quer nos vender, ela passa pelo respeito ao semelhante e mostra com lentes garrafais que não há espaço para o preconceito, para discriminação e para falta de respeito, valores que a atual grade escolar não consegue passar.

Sei que alguns podem pensar que uma coisa não tem nada a ver com a outra, pois teatro é uma arte e não deve se prestar a este papel, mesmo assim vou discordar, pois a função de qualquer arte vai muito além de ser uma atividade criativa e o Teatro, pode sim, cumprir muito bem esse papel. Além do mais, mesmo que a disciplina nas escolas não revele nenhum grande talento, com certeza vai formar um público que vai saber respeitar o teatro como a grande arte que é.

Uma sociedade melhor, passa pela educação, principalmente de suas crianças, e fazer do Teatro, que é um lugar da democracia dos sentimentos e das emoções, um instrumento para levar às crianças e aos adolescentes, os verdadeiros valores de um cidadão e ainda oferecer à elas arte e cultura, não pode ser assim tão ruim, não é mesmo?

Portanto, à todos que ministram suas oficinas, ensinando a arte do Teatro às crianças e aos jovens, saibam que, mesmo que inconscientemente estão sendo responsáveis por formarem novos cidadãos, que com certeza, crescerão livres de preconceitos e com a mente aberta para entender que uma sociedade é feita de diferentes.

Escrito por Paulo Sacaldassy

Colaborou: Poucas Palavras de Paulo Sacaldassy; Foto: Peça "Vermelho"

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

É BRINCANDO QUE SE APRENDE


Pode parecer que não, mas a maneira descompromissada com que o teatro é levado aos jovens em cursos livres de teatro em várias escolas, onde o clima de brincadeira de imitação é predominante, já que o intuito é passar cultura de uma forma lúdica, deixa marcas profundas em alguns jovens.

Nada pejorativo quando digo: “brincadeira de imitação”, apenas a constatação de que é brincando que se aprende tudo nesta vida. E a forma com que os jovens tomam contato com “fazer teatral” nestes cursos livres, faz com que o teatro faça parte na vida de cada um, ou pelo menos de alguns que se identificam com o “fazer teatral”.

A “peçinha” apresentada no final de ano na escola, mesmo tendo apenas um caráter festivo, com certeza, para alguns, é algo da maior importância, pois desperta neles, a vontade de continuar a trilhar os caminhos de um palco de teatro. A brincadeira ensinou para alguns, como o teatro é maravilhoso.

E já contaminados pelo bichinho do teatro, já não se satisfazem com os espetáculos de final de ano, querem festivais estudantis, mostras de cenas curtas, querem dividir o que aprenderam. E o que começou de brincadeira, já passou a ter um sentido na vida nestes jovens.

Pena que são poucas as escolas que oferecem aos seus alunos a oportunidade de experimentar as maravilhas do “fazer teatral”. Nem todos entendem o quanto é importante incluir cultura na formação dos jovens. A cultura, tal como o esporte, transforma a vida de um jovem.

Mas, como nem tudo na vida é perfeito, resta-nos lamentar com os que não tem essa visão e parabenizar todos àqueles que, ás vezes com muita dificuldade e enfrentando enormes obstáculos, procuram levar um pouco de teatro aos jovens por este país afora.

Pois, brincando é que se aprende e aprendendo que se é capaz de transformar o mundo. E assim, de maneira despretensiosa vai se brincando de ensinar teatro e trazendo cada vez mais jovens para engrandecer o movimento teatral.

Escrito por Paulo Sacaldassy

Colaborou: Poucas Palavras de Paulo Sacaldassy; Foto: tHEaTer FuN sCRiPtS

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O PODER PÚBLICO E A CULTURA


Independente de ser ano eleitoral ou não, se bem que ano eleitoral não deve ser levado em conta mesmo, o que não consigo entender é a relação entre o poder público e a cultura durante o mandado do gestor público, porque, promessas, só o papel aceita e, como aceita! Até entendo que existam outras prioridades, aliás, em algumas cidades, o que não faltam são prioridades, mas a cultura só é lembrada em épocas de festas e comemorações.

São poucas as cidades que pensam a Cultura como fomentadora e geradora de mão de obra artística, umas tem até Secretarias específicas, mas com realizações pífias, diante da magnitude do que realmente seja e enseja a cultura. Tratam a cultura com um simples instrumento de manifestações populares que oferecem ao povo em datas especiais. A Cultura é muito mais que festa de aniversário da cidade.

É claro que o calendário de manifestações culturais deve ser realizado e até mesmo incrementado, mas o Poder Público se esquece do artista, daquele que constrói e dá vida as manifestações culturais. Para ocupar os espaços para as festividades locais, precisam da arte do artista, mas eu vos pergunto, meus amigos artistas: – Existe algum apoio do Poder Público para a manutenção da suas artes em suas cidades?

Fomentar a arte local e prestigiar os artistas da terra, não faz parte de quase nenhum orçamento das Secretarias de Cultura, mas não há cidade que não se locuplete com os sacrifícios que os artistas fazem para fomentar a cultura local. O Poder Público só tem olhos e verbas para grandes acontecimentos, não para aquele grupo de teatro amador da esquina, ou aquele cantor de barzinho, ou para aqueles solitários escritórios. Parece que estes não fazem cultura.

De nada adianta discursos vazios e projetos inócuos, se na prática, são poucas as cidades que fomentam e movimentam a cultura local. E não pensem que eu estou falando única e exclusivamente de verbas, falo é da falta de espaço, da falta de divulgação e da falta de apoio para gerir anualmente e initerrupitamente, os projetos culturais. Se o artista não corre atrás, a cultura da cidade não acontece. E o Poder Público? Não faz nada.

Como querem que a sua cidade seja um celeiro de artista, se não apóiam os artistas? Depois é muito fácil bradar aos quatro cantos que a cidade é um reduto de artistas, e sair conclamando os nomes desses artistas, que, por conta própria, conquistaram seus espaços. Isso é hipocrisia. E é por tudo isso que jamais vou entender essa relação entre o Poder Público e a Cultura, pois para o Governo, Cultura sempre será só mais uma “Pasta” que recebe verbas que precisam ser aplicadas em manifestações culturais para agradar a população.

Fazer arte é com o artista, mas preservar, divulgar, incentivar e propagar a cultura, é, e sempre será, atributo do Poder Público, portanto, que nos próximos mandatos, mais cidades escolham Secretários de Cultura preocupados em fomentar e gerir a cultura de sua cidade com mais comprometimento, dando ao artista o devido valor pela sua arte.

Escrito por Paulo Sacaldassy

Colaborou: Poucas Palavras de Paulo Sacaldassy; Foto: Espetáculo "O Beijo no Asfalto"

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

RESPEITE O PÚBLICO, ELE MERECE


Todo mundo sabe que o artista gosta de transgredir, provocar, se arriscar, causar impacto, mas nunca foi de bom tom, mostrar certas situações em cena, pois deve se pensar no público e naquilo que pode constranger a platéia, não deixando que esta seja pega de surpresas, com cenas que possam lhe agredir, principalmente quando não é devidamente avisada.

Até entendo as experiências e as experimentações que são testadas em um festival de cenas, mas o ator, grupo e diretor, precisam ter a consciência que um festival desse tipo, leva um público diferente, não acostumado com o teatro e que vai assistir as cenas, muito mais para prestigiar filhos, amigos e parentes, do que qualquer outra coisa, por isso, ao apresentar o seu trabalho, o artista deve ter um cuidado redobrado.

Mesmo acostumado com a transgressão do ator em cena, fui pego de surpresa na noite de Domingo em um festival de cena, onde levei minha esposa, minhas filhas menores, minha mãe, meu sobrinho e minhas irmãs para prestigiar minha outra filha na apresentação de seu monólogo, com cenas de sexo quase explícito, de um mau gosto imperdoável. Como público, eu me senti agredido.

A preocupação de quem apresentou a cena, foi única e exclusivamente de aparecer, pois a tal cena não era baseada em nenhuma dramaturgia que justificasse tamanha apelação. Ainda que assim fosse, o bom senso manda um cuidado redobrado para que não venha a constranger o público com algo que ele não está esperando. E foi isso que acontece, o público foi duramente desrespeitado.

Além de demonstrarem um despreparo artístico com interpretações fracas e canastronas, o grupo, seus atores e direção, mostraram que precisam aprender muito, sobre como tratar um público. Expor as pessoas da platéia com cenas grosseiras e cafajestes quando esta não é devidamente avisada, só confirma o caráter amador e a condição irresponsável de quem faz teatro apenas para aparecer. Teatro deve ser feito com responsabilidade.

Respeitar o público deve vir antes de qualquer espetáculo, ou cena que seja, pois o artista quer mostrar o seu trabalho, a sua arte, às pessoas e essas, devem sempre ser colocadas como o objetivo maior, o público é a razão do artista e não o artista a razão do público. Agredir o público com cenas constrangedoras, serve apenas para dar a certeza que o seu trabalho é pequeno e sem valor.

Portanto, seus pseudo-artistas, quando quiserem transgredir, provocar, se arriscar, causar impacto, lembrem-se sempre, que o que faz a sua cena ou o seu espetáculo ser um sucesso é o respeito que vocês tem para com o público que lhes assiste. Respeite o público, ele merece!

Escrito por Paulo Sacaldassy

Colaborou: Poucas Palavras de Paulo Sacaldassy; Foto: Espetáculo "O Idiota – Uma Novela Teatral"

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

O SANGUE, O SUOR E A LÁGRIMA DA CRIAÇÃO


Diante de uma folha em branco e do desafio de criar mais uma história, o escritor, dramaturgo ou roteirista tem muitas vezes de chorar lágrimas de sangue para conseguir contar uma bela história. Por mais domínio que se tenha da arte de conduzir uma narrativa, nunca é fácil criar, ainda mais quando as histórias parecem ter sido todas contadas.

A impressão que dá é que não se vai conseguir escrever uma única linha sequer, pois, não é apenas escrever palavras, é preciso contar uma história e esta história tem que ter algo que seja interessante de ser contado, algo que alguém queira ler ou ver e é aí que se derrama sangue, suor e lágrima para se criar uma obra literária.

E essa dificuldade fica ainda maior quando nos lançam o desafio de desenvolver uma história em cima de um tema pré-determinado, aí parece que as idéias fogem, nada parece fazer sentido e não há uma única história que tenha um conflito razoável sobre o tema, uma única pontinha que desencadeie uma ação dramática que valha a pena ser contada. E então, o sangue escorre, o suor escorre, a lágrima escorre…

Engana-se quem pensa ser tarefa simples escrever uma história. Tirar a idéia da cabeça e colocá-la no papel, muitas vezes leva, dias e noites de, escreve e apaga na tela do computador. Ver a peça encenada, o filme em cartaz, ou ler o livro publicado, faz parecer fácil a arte de contar histórias, mas transpor emoções para o papel é trabalho duro.

Só que é esse trabalho duro que lapida a arte de um escritor, é ele que faz possível, criar ações dramáticas que se desencadeiam num elo de outras ações dramáticas, em busca das resoluções dos conflitos que justificam as histórias contadas. É esse trabalho duro que faz o escritor, dramaturgo ou roteirista fugir dos clichês e trabalhar sua criatividade para sempre surpreender.

É claro que nem sempre se consegue escrever uma obra literária de grande qualidade, pois, por mais que se tenha derramado sangue, suor e lágrima, para criar uma história, não se foi suficientemente capaz de desenvolver ações dramáticas que fugissem do convencional para que fizesse dela mais que uma história comum com conflitos comuns.

Mas, é assim: trabalhando duro, misturando inspiração, com sangue, suor e lágrima, que se vai ao encontro da criatividade, para aí sim, ir em busca de escrever uma grande história. Se ela vai surpreender? Sempre se espera que sim. Mas, como vai se saber? O importante de tudo é desenvolver sua arte com verdade, independente de sua história vir a ser um sucesso ou não.

Escrito por Paulo Sacaldassy

Colaborou: Poucas Palavras de Paulo Sacaldassy; Foto: Turma no Festival de Curitiba

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

CÓPIA, A EFICIÊNCIA DO INCAPAZ


Leva-se anos até que consigamos estabelecer um nível de aceitabilidade do nosso trabalho, quantas e quantas vezes somos obrigados a refazer e refazer o que já foi por várias vezes refeito? E, quantas críticas nós tivemos que engolir a seco, até mesmo aquelas que não tinham nenhum fundamento? E pra quê? Para depois encontrarmos nosso trabalho copiado e vendido como algo inédito. Parece-me injusto, não é mesmo?

Não consigo entender o que faz alguém copiar uma obra alheia, a subscrevendo como se sua fosse. Talvez a vontade de receber os louros por aquilo que ele jamais conseguiria. A arte da criação traz incutida nela, os traços de quem a fez e por mais que alguém queira chancelá-la como sua, não conseguirá por muito tempo, pois não se consegue copiar uma obra inteira. Esses só conseguirão receber o atestado da eficiência do incapaz.

Incapaz não apenas por não ter a capacidade de produzir algo realmente seu, mas incapaz de compreender que a obra de um artista é única. Nela está marcada o pensamento, os anos de estudo e de dedicação, a alma que o artista coloca em cada uma de suas obras, sejam elas, uma poesia, uma música, uma peça de teatro, um texto literário, ou qualquer coisa escrita que nasça de uma criação artística.

O conceito de se levar vantagem em tudo, também pode justificar atitudes desse tipo, pois, a necessidade que as pessoas tem em serem importantes, mostrarem-se cultas e altamente capazes de produzirem algo de grande valor, é enorme. É a pequenez do Ser humano nos dias de hoje. Plagiar uma obra artística é o golpe mais baixo que um artista pode sofrer, pois é como alguém lhe roubasse seus pensamentos, sua alma.

Mas, como evitar isso? Nos dias de hoje é muito mais difícil, pois, com o advento da internet, onde se pode publicar tudo quanto é tipo de texto, o artista acaba ficando vulnerável e muito mais exposto a ter uma obra sua copiada por alguém. Porém, a internet também funciona como um via de mão dupla e, através dela, o artista pode descobrir se sua obra foi ou não copiada. Não é muito, mas pelo menos é uma arma de defesa.

Lutar contra o ataque daqueles que possuem a eficiência do incapaz, sempre será uma tarefa muito complicada para o artista, ás vezes, ele nunca saberá se sua obra foi copiada ou não, pois um artista de verdade está muito mais preocupado em criar, que não tem tempo de descobrir o que fazem com a obra dele. A criação artística, ainda mais quando ela é bem sucedida, sempre despertará a cobiça do incapaz.

Escrito por Paulo Sacaldassy

Colaborou: Poucas Palavras de Paulo Sacaldassy; Foto: Espetáculo "A Família Addams"

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

A INQUIETAÇÃO DO ARTISTA


O artista é, por sua própria essência, um ser inquietante, ele mexe, cutuca, revira, tira a ordem das coisas, experimenta, inventa, arrisca, inova, aposta, se joga no abismo escuro sem paraquedas, choca, provoca, surpreende, transforma, faz o faz-de-conta, a realidade e a realidade, um faz-de-conta. O risco é o companheiro da alma do artista. E não há um só artista que aceite pacientemente, a acomodação das coisas.

Essa é a natureza do artista, é o que lhe move, lhe estimula, lhe instiga, lhe absorve, lhe faz transpor o normal, o que lhe inspira, pelo qual transpira, é o que lhe vale à pena. A inquietação é seu combustível em todos os estágios da matéria e, quanto mais inquietante, mais excitante, mais estimulante, mais delirante, mais distante da lógica. E assim, o artista se atira em seus vôos cegos em busca de mostrar a sua arte.

Mas, ás vezes, os vôos cegos, são tão cegos que o artista perde a mão do que é ser um artista inquietante e acaba por se mostrar incompreendido por abusar do risco. O fio da navalha da inquietação corta a audácia de quem quer tão somente ser inquietante gratuitamente. A provocação que instiga e inquieta a platéia, também é fruto de muito trabalho, pois, só quem conhecer a ordem é que sabe fazer a desordem.

A aposta simples na inquietação do público como forma de apresentar a sua arte, muitas vezes põe por terra uma idéia promissora, por isso, por mais inquietante que seja a alma de um artista, não é assim uma tarefa das mais confortáveis para amadores e inexperientes, pois, tirar o público da inércia de espectador ao ponto dele se sentir incomodado, inquietado, provocado, sem a habilidade necessária, é dar um tiro no pé.

É bom que o artista, principalmente aqueles que estão alçando os primeiros vôos, brinque com suas idéias, aprenda a subverter a ordem das coisas, experimente a sua inquietação como um ser humano incomodado pela inércia da vida, e teste misturar tudo isso á uma dramaturgia forte, contundente, que cutuque o público do começou ao fim, sem se tornar cansativo, repetitivo ou até mesmo, incompreendido.

Ousar é bom, mas saber dosar também é, portanto, o artista sempre será esse ser inquietante, que mexe, que cutuca, que provoca, mas, o importante, é que ele conheça os riscos de sua audácia e se prepare para sofrer as críticas quando a sua inquietação não passar de conflitos internos e de idéias desconexas em busca de um re-alinhamento.

E que nenhum artista se sinta incomodado com essas minhas poucas palavras, pois, é que a minha alma inquietante de artista quis apenas aqui se manifestar. A inquietação do artista é assim, chega, não pede passagem, faz bagunça em tudo e não deixa nada no seu lugar, há quem goste, há quem não goste, mas não há o que se possa fazer.

Escrito por Paulo Sacaldassy

Colaborou: Poucas Palavras de Paulo Sacaldassy; Foto: Raul Gazolla na peça "Pressão Alta"

segunda-feira, 22 de julho de 2013

A ARTE JÁ NÃO IMITA A VIDA


Ainda tenho na lembrança a primeira vez que ouvi ainda nos bancos escola-res, a seguinte frase: “a arte imita a vida”. Lá se vão longos anos, mas, agora, a arte já não imita mais a vida, não que ela não queira, não faz porque não pode. Retratar a vida e os Seres humanos do jeito que eles são como fizera outrora grandes escritores, passou a ser passível de punição, processo, indenização e sei lá mais o quê.

A sociedade, que aqui nunca foi igualitária, hoje está ainda mais repartida e é formada por minorias sensíveis e melindrosas, que se ofendem por todo e qualquer comentário ou comportamento de um personagem de ficção, como se a vida real, fosse um mar de rosas e vivêssemos em bolhas de vidros, livres de pessoas de caracteres duvidosos que nos possam destratar. Tudo passou a ser ofensivo, pejorativo, humilhante e degradante.

Se a arte sempre imitou a vida, como não conceber personagens de caráter duvidoso, que exalam preconceito por todos os poros? Pessoas que ofendem minorias, que agridem mulheres, violentam crianças, que assaltam, roubam, estupram, elas estão por todos os cantos. Impedir a arte de retratar essa faceta do Ser humano para proteger minorias, agride a essência da arte, que é e sempre foi, a de imitar a vida.

A vida é dura e a realidade é mesmo crua, sangra as nossas entranhas, fere nossa honra, indigna nossa personalidade, mas é essa a vida que se tem pra viver. Pessoas más são pessoas más e, pronto. Elas não têm, ética, ofendem, destratam, humilham, é assim na vida e essa vida precisa ser mostrada, não pode ser objeto de censura, de punição, ou de qualquer outra interpelação e em nome desta ou daquela minoria.

Não é impedindo a arte de mostrar o Ser humano com todas as suas imperfeições, que vamos exterminar os problemas que afligem os Seres humanos repartidos em suas minorias. Não é interpelando judicialmente uma obra literária de Monteiro Lobato, que vamos exterminar o preconceito racial. Não é patrulhando a liberdade de criação de um autor, que vamos exterminar todos os males dessa vida.

A arte, desde a Grécia Antiga, retratou e retrata o comportamento de uma sociedade e nela, habitam seres bons, seres maus, seres sem preconceitos, seres preconceituosos, seres de almas imaculadas e de almas sujas, seres violentos, seres sem escrúpulos. Não existem seres perfeitos, uma hora ou outra, todos nós nos colocamos de maneira preconceituosa sobre algum assunto, isso é fato. O Ser humano não enxerga o seu rabo.

Portanto, deixemos que a arte cumpra o seu papel, que é o de levar ao povo, o retrato de si mesmo, Nem tudo é belo, nem tudo é feio. É apenas a vida! Deixemos que a arte imite a vida e não queiramos que a arte mostre uma vida que não existe. Não precisamos de uma sociedade formada de vítimas, precisamos de uma sociedade que se respeite e lute por justiça, sem cercear o direito de um autor retratar a vida como ela é.

Escrito por Paulo Sacaldassy

Colaborou: Poucas Palavras de Paulo Sacaldassy; Foto: Gabriela Duarte em "A Garota do Adeus"

segunda-feira, 8 de julho de 2013

VIVER DA PALAVRA


Volta e meia vejo discussões sobre como furar o funil dos autores das novelas de televisão e são na maioria das vezes, discussões acaloradas, pedindo oportunidades, mas o funil é muito estreito e não há como não admitir, as oportunidades estão sendo dadas, questionar os critérios não me parece salutar, pois se pressupõe que os que as têm, não são capazes, só que temos visto que não é verdade, vide as novelas que estão no ar.

Talvez o grande problema dessas discussões esteja no âmago da questão: o querer escrever! Acredito que os que pleiteiam uma oportunidade para se tornarem escritores de novela, sejam pessoas que vivam da palavra, pois para quem vive da palavra, poder alcançar esse degrau é poder fazer chegar a mais pessoas, as idéias que eles só conseguem levar a uma minoria que admiram o seu trabalho.

Quem vive da palavra, a faz através da literatura, através do cinema, através do teatro e pode sim, fazer na televisão, ou não. Tornar-se um escritor de nove-la pode ser apenas um complemento para quem vive da palavra e, para muitos que vivem da palavra, chegar lá nem é projeto de vida. Quem trabalha com a escrita, precisa trabalhar com a escrita através do leque que o viver da palavra proporciona.

Para muitos que escrevem, poder participar da equipe de colaboradores de uma novela, pode ser o supra-sumo da carreira, e sei de muitos que se realizam assim e, por quê? Porque o que interessa à eles, não é ser escritor de novelas, pois isso eles já são de fato, é ter a certeza de que estão vivendo da palavra e, assim, ainda têm a oportunidade de transitarem por outras áreas da escrita, aumentando ainda mais, a satisfação pela opção de viver da palavra.

A idéia de fama e reconhecimento faz com que muitos confundam o ofício de escrever, com o “glamour” de ser autor de novelas, no ar, depois de editada, pode até parecer fácil, todo mundo sempre acaba achando um defeito aqui, outro ali, e se julga capaz de fazer diferente, de outra forma, ou até melhor, mas o fato real é que para ter a oportunidade de assinar uma novela só sua, é preciso ter mostrada que é capaz de viver da palavra.

Como no futebol, muitos talentos ficam no caminho por vários motivos que não cabe aqui enumerá-los, mas o fato é que quem pleiteia uma chance de escrever uma novela, deve se ater ao projeto de viver da palavra. Eu já fiz a minha opção, não sei se um dia terei a oportunidade de me juntar ao menos a um grupo de colaboradores de algum autor de novela, mas há tempos decidi que mudaria a minha vida para poder viver da palavra.

Escrito por Paulo Sacaldassy

Colaborou: Poucas Palavras de Paulo Sacaldassy; Foto: O ator Nilton Bicudo em cena da peça "Coisa de Louco"

segunda-feira, 24 de junho de 2013

A IDENTIDADE DE UM PAÍS


É a duras penas que um povo constrói a identidade de seu país, usos e costumes, aos poucos, vão dando forma ao que chamamos de patrimônio cultural e é ele que diferencia um país dos demais e que nos faz reconhecer a identidade de cada povo. O patrimônio cultural representa a alma de um povo e precisa ser preservado, sob pena de ver a sua identidade transformada de tal forma que não mais reconheceremos nem seu povo e muito menos seu país.

Cada país vai formando a sua cultura passo a passo, pois são vários os fatores que contribuem para essa formação. Até que se chegue a um consenso de um grupo de hábitos advindo do uso e do costume que representa a identidade cultural de um país, muita coisa acontece. Nós somos um país miscigenado e fomos construindo a nossa identidade cultural com usos e costumes de todos os povos que aqui vieram morar.

Temos como base de formação do nosso patrimônio cultural, os usos e costumes oriundos dos portugueses, dos italianos, dos japoneses, dos holandeses, dos árabes, dos índios, dos negros, cada qual, contribuiu com um pedaço de sua cultura para a formação daquilo que o mundo reconhece como a identidade brasileira. Mas, às vezes, deixamos que sobreponham á cultura de outro povo à nossa.

Na nossa cultura há uma quantidade imensa de mitos e lendas, nosso regionalismo, oriundo da imensidão continental do nosso país é repleto de danças, histórias e peculiaridades, temos caboclinhos, bumba-meu-boi, maracatu, a cultura caiçara, os ribeirinhos, os caipiras, o samba, o carnaval, as festas juninas e eu não entendo porque nos rendemos a cultura americana do dia das bruxas. Em que lugar da história consta na formação de nossa cultura, os usos e costumes do “halloween”?

O dia das bruxas no Brasil é uma invenção mercantilista e com fins financeiros da exploração da atividade econômica de uma festa que não é nossa, não nos representa e não faz parte de nossa cultura. O pior é que as escolas de norte a sul do país, fazem desta data um grande evento. E o nosso folclore, será que não merece a mesma festa? Contaminamos nossos pequenos com uma cultura alheia, ao invés de transmitirmos o que faz parte de nossa vida.

Com tantas influências que formaram a nossa identidade cultural, pouco do que realmente nos representa de fato é valorizado com a mesma intensidade e empenho que se dá a esta festa tipicamente americana. Abóboras assustadoras, doces ou travessuras e tudo mais que indicam a comemoração desta data, está longe de representar a cultura do nosso país que é muito maior do que um simples dia das bruxas.

Escrito por Paulo Sacaldassy

Colaborou: Poucas Palavras de Paulo Sacaldassy; Foto: Peça "Feizbuk"

segunda-feira, 10 de junho de 2013

DA TEORIA À PRÁTICA


Pode até parecer fácil, mas a distância entre a teoria e a prática é imensa, principalmente em se tratando do ofício de escritor. Seja uma peça de teatro, um roteiro de cinema ou até mesmo uma novela, tanto a teoria, quanto a prática, ás vezes nos parecem insuficientes e uma não vive sem a outra. Mas, não é difícil encontrar aqueles que, mesmo sem ter a prática e muito menos a teoria, se julgam capazes de realizar quaisquer dessas empreitadas.

Não bastasse a insolência de se arriscarem num campo desconhecido, sim, desconhecido, pois não é porque se vê muito algo, que se tem condições de encará-lo, esses jovens ansiosos ainda se julgam capazes de criticar quem levou anos para assimilar a teoria e anos a fio praticando o exercício da escrita. Querer nem sempre é poder.

Eu até entendo que ás vezes a vontade se sobrepõe á realidade, e acabamos colocando a carroça na frente dos bois, mas não adianta, não tem talento que resista a falta de teoria e de conhecimento, principalmente quando falamos da arte de escrever histórias. Uma hora ou outra, uma das duas vai fazer falta, ou as duas, especialmente se o sonho de escrever virar realidade. Na prática a teoria é outra.

O caminho da escrita, à primeira vista, sempre parece um mar de rosas, mas podem apostar, é tão duro quanto qualquer outra atividade, digo mais, é até mais duro, pois não é tarefa simples a de agradar pessoas com as nossas histórias. As nossas histórias são boas para nós; isso é o que sempre achamos, mas e a opinião dos outros? Não é fácil ouvir que o que fazemos não serve pra nada.

Vocês podem até dizer que pouco importa a opinião dos outros, mas uma hora vai importar, pois quem escreve, escreve para falar a alguém, porque senão, qual a razão de tanto esforço? A tarefa é árdua e não pensem que são capazes de fazer melhor de quem tem anos e anos de estrada, mesmo porque, há outros percalços no caminho de quem escreve e gostar de escrever nem sempre é poder fazer. Escrever não é brincadeira.

Espero que muitos que estejam se iniciando no ofício de escrever, possam se tornar grandes escritores, grandes dramaturgos, grandes novelistas, ou até mesmo, grandes críticos de arte, pois até para criticar quem escreve, tem de saber como é que se faz, mas falar sobre a crítica de arte vai ficar para outro dia.

Portanto, muito mais do que dar asas a imaginação e ter vontade voraz de se tornar um grande escritor é preciso frear a ânsia do fazer de qualquer jeito e de achar que se é capaz. É preciso ter a consciência do aprender, a fim de reunir teoria suficiente para poder colocá-las em prática. Só assim vocês conhecerão a verdadeira distância que há entre a teoria e prática.

Escrito por Paulo Sacaldassy

Colaborou: Poucas Palavras de Paulo Sacaldassy; Foto: Ester Laccava em cena, com Kiko Vianello na comédia "Pessoas Absurdas"

segunda-feira, 27 de maio de 2013

TEATRO TAMBÉM É ENTRETENIMENTO


Desde os tempos longínquos, lá da Grécia antiga, que os grandes pensadores se valiam da arte do Teatro para transpor em cenas as histórias dos seus mitos. Tempos mais tarde, dramaturgos como William Shakespeare, Tennessee Williams, Nelson Rodrigues e Plínio Marcos dramatizaram com brilhantismo o turbilhão de emoções da alma humana, mas hoje em dia, a arte do Teatro também passou a ser um excelente entretenimento.

O caráter provocativo, questionador e investigativo da alma humana, que sempre norteou os textos de teatro e consagraram os autores gregos e os contemporâneos, vem perdendo cada vez mais espaço para os textos de comédias e textos mais leves, o que vem dando ao Teatro, o status de ser mais uma opção de entretenimento. E isso parece um movimento sem volta, pois é uma escolha popular.

Sei que muitos torcem o nariz para essa tendência de espetáculos que exploram o gênero comédia e continuam a produzir segunda a receita dos consagrados dramaturgos, que buscavam através de suas histórias, desvendar as entranhas do Ser humano, provocá-lo e fazê-lo pensar, mas o público anda cada vez reticente à esses gêneros de espetáculos dramáticos, preferindo cada vez mais as comédias. Talvez isso seja pelo estresse da vida moderna.

Não há com negar que o Teatro vem se tornando cada vez mais entretenimento, e tanto as comédias, como os grandes musicais, (que a cada dia ganham espaço no gosto popular) tem contribuído muito por essa forma de contar as histórias, voltadas mais para agradar, encantar, entreter, do que questionar, provocar e estimular o pensamento. Os dramas do dia-a-dia não mais seduzem o público, aliás, na verdade, acho que o grande público nunca foi seduzido por eles.

O desvendar da alma humana que permeavam os grandes textos de teatro e que o fazia ser uma das grandes artes do pensamento, veio pouco a pouco perdendo o seu espaço e hoje só alguns poucos artistas famosos, ousam produzir os grandes clássicos. Não que os outros artistas discordem da importância, ou da excelência literária e dramatúrgica destes textos, é apenas por pura sobrevivência. Ou você faz o povo rir, ou você passa fome.

E assim, de comédia em comédia, de musical em musical, a arte do Teatro que tinha suas bases em conflitos da alma humana, carregados de dramas, questionamentos e provocações, vai se tornando entretenimento e se aproximando cada vez mais do povo. Uma pena? Eu particularmente acho que não, pois até prefiro escrever comedias aos dramas humanos e não é porque eu escreva comédias que não esteja escrevendo para o Teatro.

Teatro é a arte de interpretar a vida humana, portanto, por que não se pode contar uma história sobre a ótica da comédia ou através de musicais? Não é porque a intenção é entreter que não se pode questionar, provocar e instigar o pensamento humano. E para terminar vale lembrar que é rindo que falamos as mais duras verdades, não é verdade?

Escrito por Paulo Sacaldassy

Colaborou: Poucas Palavras de Paulo Sacaldassy; Foto: Musical "Godspell"

segunda-feira, 13 de maio de 2013

QUANDO SE CAI NO GOSTO POPULAR


Sem querer discutir a essência do que seja arte ou até mesmo questionar a qualidade artística de qualquer artista, o que fica claro nos dias de hoje é que quando o artista cai nas graças do público, não há quem o segure. Tudo o que ele faz passa ser maravilhoso, e não adianta argumentar, parece que quando mais se fala mal, mas as pessoas gostam.

É claro que a mídia tem papel fundamental no surgimento, crescimento e consagração de cada artística, pois é ela, e não há como se negar, que é a grande responsável por fenômenos de venda como esses que acompanhamos nos dias de hoje, principalmente na chamada nova música sertaneja universitária. Para mídia, pouco importar a arte ou a qualidade artística que é oferecida ao público.

E não é só na música que encontramos isso, também no teatro, no cinema, e mais visivelmente na televisão, fenômenos de audiência são declarados por muitos como programas de mau gosto, de baixa qualidade artística, disso, daquilo, mas a mídia ofereceu, o público elegeu, está eleito e não se discute. São coisas que confesso, não consigo entender.

Dizer que o povo é “Maria vai com as outras”, que não tem opinião própria, que é influenciado, que não tem gosto próprio, que aceita qualquer coisa que o oferece, etc, etc, etc, pode até justificar que tal artista caia no gosto popular, mas será que a culpa é só da mídia que empurra tudo e do público que aceita qualquer coisa?

Na verdade o que alguns querem, inclusive eu, é que a qualidade artística, a expressão verdadeira da arte seja oferecida ao público, para que ele tenha como comparar o que lhe é agradável ou não. A massificação de programas, músicas e outras “cositas” mais, de comprovada baixa qualidade artística, faz com que o povo eleja sem ter com o que comparar.

Entregar como cultura, uma arte de tão baixa qualidade artística é contribuir pa-ra uma desinformação popular, que embora produza fenômenos artísticos não acrescenta nada ao cidadão. Quem sabe se oferecêssemos algo com um verdadeiro valor artístico, não produziríamos artistas que também caíssem nas graças do povo, porque quando algo ou alguém cai no gosto popular, não há o que e quem o segure.

Escrito por Paulo Sacaldassy

Colaborou: Poucas Palavras de Paulo Sacaldassy; Foto: O argentino Daniel Veronese com o Espanca!, grupo de BH

segunda-feira, 29 de abril de 2013

A SUPERFICIALIDADE DO ATOR


Quando vamos ao teatro, esperamos sempre assistir a um bom espetáculo e ser brindados por uma boa interpretação, mas nem sempre isso é possível. Ás vezes, grandes trabalhos se perdem por um único motivo: a superficialidade do ator. A falta de verdade que vimos diante dos nossos olhos, invariavelmente põe tudo a perder.

Dias e dias de ensaios parecem não serem suficientes para aqueles não levam aquilo que faz a sério, pois em cima do palco, vimos que o ator se esqueceu de levar a alma da personagem para cena. E é um festival de caras e bocas, de gestos e trejeitos, um faz de conta sem tamanho, que faz o espetáculo parecer uma brincadeira sem graça.

Talvez nem seja pela falta de conhecimento do que se esteja fazendo, mas sim por pura insegurança, o medo de se colocar desnudado diante de uma platéia é apavorante. Mas, por outro lado, pode ser que seja o mais puro exibicionismo, então se usa o palco para aparecer para amigos e parentes e a personagem nem sai do camarim.

É claro que no circuito profissional é mais difícil encontrar essa superficialidade, mas não pensem que ela não existe, atores que já se acham acima do bem e do mal, nomes conhecidos da mídia, esquecem a emoção e enchem a cena de uma superficialidade patética, que chega a agredir a arte com a brincadeira de faz de conta de que se é ator.

O ator precisa dominar a sua personagem, esse é o seu ofício. Quando não se está preparado para enfrentar as entranhas da personagem, ou não se é pscicológicamente forte para entender a psique da personagem, é melhor recuar e se aprimorar ainda mais, pois pior do que não ter talento para atuar, é tratar a cena com superficialidade.

O teatro é mágico e encantador porque faz com que as pessoas riam, sofram e se emocionem com aquilo que o ator tem para lhe contar, tratar o texto com superficialidade é destratar o público que vem lhe prestigiar. O ator não pode achar que fazendo de conta que faz, vai convencer o público que o vê.

Portanto, quem quer ser ator de verdade, ainda que seja forma amadora, precisa entender que teatro é arte da dar vida à outra vida, e ninguém vive a vida superficialmente, então, por que se haveria de vivê-la desta forma em cima de um palco? Ator; aprofunde-se no seu ofício, pois o que o público quer é poder sair do teatro satisfeito por assistir a uma grande atuação.

Escrito por Paulo Sacaldassy

Colaborou: Poucas Palavras de Paulo Sacaldassy; Foto: Ed Moraes em "Um Verão Familiar"

segunda-feira, 15 de abril de 2013

DESENHOS DA TV NO TEATRO, VÊ SE PODE?


Antes de mais nada, quero deixar bem claro que sou e sempre fui fã de desenhos animados, aliás, eles também contribuíram na minha decisão por escrever. Quando criança, não perdia um, e hoje, mesmo sendo mais difícil, por conta dos compromissos, sempre que posso, dou um jeito de dar uma espiada em alguns dos meus desenhos favoritos, mas sempre gostei de assisti-los ali, na tela da TV, acontece que hoje em dia, resolveram levar alguns deles para os palcos do Teatro.

Desenhos da TV, é da TV, não tem nada a ver com teatro, teatro é outra coisa. Mas a cobiça, travestida de desculpa mercadológica e que no fundo não passa de ação oportunista, faz com que muitos produtores estejam produzindo espetáculos de teatro com personagens de desenhos que fazem sucesso na TV. Puros espetáculos caça-níqueis e que não acrescentam nada para a difusão e popularização do Teatro. São entretenimentos, e só!

Levar desenhos que as crianças assistem incansavelmente por horas e horas, confortavelmente em seus sofás para o palco do teatro, só tem um fim: o financeiro. É a busca do lucro fácil e a certeza de casa cheia, nada mais, esse é o intuito dessas produções. Já os espetáculos de teatro infantil de muitos grupos, mal conseguem espaços para suas apresentações e quando conseguem, quase não tem público.

Ver espetáculos apoiados em desenhos da TV ocupando espaço de grupos de Teatro que lutam para levar a arte do Teatro até a primeira infância, definitivamente não me agrada. Não é uma disputa justo, e muito menos limpa. Perde-se um tempo precioso oferecendo o quê? Nada! E cultura que é bom fica relegada a alguns poucos bem aventurados, enquanto as raposas embolsam os lucros fáceis.

É claro que é legítimo o direito de se produzir espetáculos calcados em personagens de desenhos animados da TV e cada um é livre para buscar a melhor maneira de como faturar o seu quinhão no mundo do entretenimento, mas uma coisa é líquida e certa, a dramaturgia infantil, definitivamente, não precisa dos desenhos da TV. Como diz o povo: cada um no seu quadrado. Desenhos, na TV e teatro infantil, no Teatro.

Eu sei que não há nada o que se possa fazer, apenas protestar e demonstrar o meu enorme desapontamento com aqueles que buscam lucrar com espetáculos baseados em desenhos animados da TV, que nada tem a ver com a história do teatro infantil no Brasil e no Mundo. O Teatro Infantil é um celeiro de ótimos dramaturgos, com histórias maravilhosas e encantadoras, capazes de seduzir qualquer criança sem a ajuda de nenhum dos desenhos da TV.

Agora, preciso terminar este artigo, pois senão perco o episódio do meu desenho favorito que já está quase para começar. E como não é todo dia que tenho tempo pra isso, vou ficando por aqui, pois desenho de verdade eu gosto de assistir na TV. Ah, antes que eu me esqueça, quero afirmar que no Teatro eu gosto mesmo é de ver uma peça de verdade.

Escrito por Paulo Sacaldassy

Colaborou: Poucas Palavras de Paulo Sacaldassy; Foto: Peça "Os Smurfs"

segunda-feira, 1 de abril de 2013

A ARTE DE SER UM CAMALEÃO


A arte de interpretar uma personagem, por vezes encanta quem assiste e isso acontece quando o ator consegue fazer com que aquela personagem nos convença de que tudo ali é real e mesmo sabendo que tudo é teatro, acabamos envolvidos. Nos emocionamos, rimos, nos identificamos, nos distanciamos da situação, graças a capacidade que um ator tem, de ser um camaleão.

No palco, aquela história carregada de drama ou de comédia, ganha vida impulsionada pela interpretação do ator, que nos conta a tal história, como se fosse a sua própria, moldando seus gestos, sua fala, seu andar, sua voz, suas manias à necessidades daquela personagem. Tudo para que o teatro mostre as faces da humanidade.

Ao ator foi dada essa missão e aqueles que realmente percebem a verdadeira essência de ser qual ao camaleão, conseguem o reconhecimento e os aplausos calorosos por suas interpretações. Pois não é nada fácil sentir a dor alheia como se fosse sua, achar graça da piada que não é sua, fazer chorar por um drama que não é seu. Isso é ser ator.

Fazer de conta que sofre, que ri, que se emociona é brincar de fazer arte e não se engana aquele que vai disposto a assistir a arte camaleônica de um ator. Ator de caras e bocas, que pensa que imitando uma personagem conseguirá agradar o público, será sempre identificado como um “canastrão”. A essência de um ator é fazer de cada personagem um ser real e verdadeiro, só assim haverá convencimento.

É admirável quando encontramos pelos palcos, atores que sejam verdadeiros camaleões, que nos fazem esquecer de quem são de verdade, que nos fazem acreditar em cada palavra falada, em cada gesto feito, em cada dor, em cada lágrima derramada, em cada boa gargalhada. Não há nada melhor do que poder se deixar convencer por um desses atores.

Quem dera pudéssemos encontrar pelos caminhos, mais e mais atores que entendessem que a arte de ser um camaleão é o que faz o teatro ser encantador. O teatro não seria essa grande arte, se o ator, não se despisse das suas características humanas para dar vazão às tantas personagens distintas. Eu só tenho a reverenciar à todos camaleões que se escondem e se mostram pelos palcos do mundo.

Escrito por Paulo Sacaldassy

Colaborou: Poucas Palavras de Paulo Sacaldassy; Foto: Raúl Gonzáles em cena do ótimo "Amarillo"

segunda-feira, 18 de março de 2013

A PARCERIA ENTRE AUTOR E ATOR


A arte de interpretar é acima de tudo uma arte de parceria, e quanto mais refinada for essa parceria, melhor para o espetáculo, para o filme, ou para a novela. O ator depende de um bom texto para demonstrar a sua arte de interpretação, enquanto o autor necessita de um bom ator para tirar do papel a sua história, mas não é sempre que isso acontece.

Algumas vezes vemos um texto primoroso, escrito com toda técnica, cheio de poesia, retratando uma história comovente, envolvente, mostrando de forma objetiva e de fácil identificação, as historias da vida, sendo vilipendiado por uma interpretação equivocada, tornando palavras em simples declamações decoradas sem o mínimo de emoção.

Por outro lado, também vemos muitos atores terem que se desdobrar em cena para dar vida a personagens mal escritos de textos ruins, sem conflitos, sem histórias. E por vezes, é o talento do ator, a única coisa que realmente vale a pena em cena, pois só ele é capaz de transformar com a sua interpretação o que por si só já é um fiasco, fazendo assim com que o publico esqueça a fragilidade do texto.

Um ator com um bom texto na mão é capaz de fazer coisas que deixarão marcas para sempre na memória de quem o assiste, e um bom texto dará ao ator as condições necessárias para que ele realize o seu belo trabalho. Ator e autor quando estão em sintonia e comungam do mesmo objetivo, (o de levar ao público uma boa história), presenteiam à todos, peças inesquecíveis, filmes inesquecíveis, novelas inesquecíveis.

É triste quando vemos boas histórias sendo destorcidas por conta de interpretações de fracos atores, isso é muito comum em novelas, que pede uma atuação firme e precisa dos atores, Mas, atores, muitas vezes, sem experiências, ou até mesmo sem talento, tornam palavras, frases e intenções pensadas pelo autor em algo sem sentido, sem vida e sem emoção. A palavra deve ser dita de forma correta e não simplesmente cuspida para fora.

Portanto, é certo que para que o público assista a uma boa peça de teatro, ou um bom filme, ou ainda uma boa novela, a parceria entre o autor e ator deve ser precisa. A arte da interpretação não tem espaço para maus autores e muito menos para maus atores. O que, com certeza, agradará o público, é podê-lo fazer ver em cena o reflexo límpido e claro de uma parceira perfeita entre o autor e o ator.

Escrito por Paulo Sacaldassy

Colaborou: Poucas Palavras de Paulo Sacaldassy; Foto: Peça "Limpe Todo o Sangue Antes que Manche o Carpete"

segunda-feira, 4 de março de 2013

O PREÇO DA ARTE


Quando colocamos o ponto final em uma obra artística, lançamos ao mundo o que pensamos, o que sentimos e o que vemos do mundo em que vivemos e nossa arte capturará aqueles que por ela se identificarem. Nosso valor artístico estará ali, em nosso texto, em nossa música, em nossa tela, mas como mensurar o valor do direito patrimonial em uma obra artística? Quanto vale a emoção que proporcionamos a alguém?

O pouco ou muito em uma obra artística é de fato subjetivo, pois para mim ela pode ter um valor inestimável, mas para outrem, ser apenas uma arte pífia, digna de desprezo. É realmente complicado, pois arte é uma expressão do ser humano que se propõe comover, encantar, fascinar, mas o objeto desta arte ganha forma e este material produzido tem o seu preço, caro ou barato, como saber o preço da arte?

Vender um livro, um CD, autorizar a cessão de um texto, isso até que não é difícil de se calcular, pois simples operações matemáticas nos mostrarão os custos desta produção artística e nos ajudarão a mensurar o valor dos direitos autorais que remunerarão a nossa arte, mas e o valor do patrimônio da obra que produzimos, como fica? Sim, pois a obra artística se constitui em nosso direito irrefutável e em um bem patrimonial.

Eu tenho uma dificuldade muito grande em calcular números que estipulem o valor real da minha arte. Quanto você pagaria por ela se eu as colocasse a venda? E a sua arte, por quanto você me venderia? É estranho tratar o resultado final de uma arte, como fossem paredes de tijolos que sustentam uma casa, ou peças de metais transformadas em automóvel, não é mesmo? Só que nossas obras artísticas são nossos bens e poderemos quer vendê-las, e por quanto?

Talvez o preço justo e certo da nossa arte seja estipulado pela lei da oferta e da procura, por certo não será levado em conta o valor artístico do que produzimos, mas sim o quanto nossa arte valerá comercialmente, mas acho que quanto maior o nosso valor artístico, maior a remuneração do nosso direito patrimonial. Um bem de um artista reconhecido valerá muito mais do que o de alguém que está apenas começando.

Portanto, podemos concluir que o preço da arte, passa pela soma do valor artístico do autor, mais o reconhecimento do público pela sua arte, somado ainda, a grandiosidade de sua obra, quanto maior for á soma desta operação, maior será o valor do direito patrimonial produzido pelo artista. Cada artista sabe o quanto a sua obra vale, só é preciso tratar de torná-la cada vez mais valorizada. O que hoje vale nada, amanhã poderá valer milhão, ou não!

Escrito por Paulo Sacaldassy

Colaborou: Poucas Palavras de Paulo Sacaldassy; Foto: Espetáculo "Um Verão Familiar"

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

ADAPTAR PARA EXERCITAR


Ás vezes, quando a inspiração não dá o ar da graça e a página em branco na tela do computador se faz assustadora e, por mais que se tente, as histórias originais que dão tanto gosto de criar, insistem em não serem contadas, eu lanço mão de uma das lições que aprendi quando freqüentava um curso de dramaturgia: fazer a adaptação de um conto.

Sim, uma boa adaptação de um bom conto é um exercício ideal para praticar a escrita enquanto nossas histórias originais insistem em nos abandonar e também é uma ótima ferramenta para quem ainda tateia e escreve suas primeiras linhas em busca de contar as suas histórias. A adaptação sempre nos auxilia, principalmente, na prática de outros formatos, seja teatro ou cinema.

A prática da dramaturgia, como muitos já devem ter ouvido, é um exercício contínuo e a adaptação de um conto vem de encontro ao exercício desta prática, pois, em cada conto, é possível encontrar todos os elementos que uma boa história necessita e que todos que escrevem, precisam conhecer e ter o domínio sobre eles. Analisar, esmiuçar e dessecar um conto e transpô-lo para um outro formato vai, com certeza, estimular ainda mais a criatividade.

Adaptar a obra de um outro autor não pode ser encarado como uma coisa menor e sem valor, acho até que muito pelo contrário, pois, transformar as linhas de um conto, narrado seja na primeira ou na terceira pessoa, em um texto para teatro ou um roteiro cinematográfico é dar movimento e ação àquela história que estava estática e só ganhava movimento na imaginação de seu leitor.

É claro que quando se faz a adaptação de um conto, não se tem a pretensão de fazê-lo melhor, apenas usar a história já contada e adaptá-la para uma outra linguagem como o teatro, cinema ou televisão. A adaptação, como já disse mais acima, nada mais é do que um grande exercício que nos ajuda a superar certos momentos de falta de inspiração e nos ensina a entender melhor os caminhos da escrita.

Nem sempre uma história original nos dá o ar da graça, não é mesmo? Nem sempre a imaginação se faz presente, mas para quem pratica o exercício da escrita diariamente, a qualquer tempo pode sacar das folhas de um velho livro, um belo conto, explorar a sua criatividade e transformá-lo, dando à ele um novo olhar, uma nova emoção, quem sabe até, um novo final.

Portanto, quem ainda não experimentou e está querendo praticar a escrita da dramaturgia, aconselho ler, esmiuçar, dessecar e adaptar um conto. Explore a história, encontre os conflitos, analise as personagens e dê um outro ponto de vista para o enredo, você não vai fazer uma história original, mas com toda certeza vai ter praticado um belo exercício.

Escrito por Paulo Sacaldassy

Colaborou: Poucas Palavras de Paulo Sacaldassy; Foto: Marco Pigossi e Glaucia Rodrigues em "Guga Melgar"

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

ONDE ESTÁ O SUCESSO?


Engraçado, quando algum artista desaparece da grande mídia, dizem que ele caiu em desgraça, que não faz mais sucesso, que isso, que aquilo. Só que muitas vezes é a grande mídia que some com ele, e alguns, realmente desaparecem, ao ponto de não se ter mais notícias deles. Mas, será que um artista que está afastado ou que sumiu da grande mídia pode se considerar um fracassado? Será que ele não tem mais sucesso?

Quantos e quantos artistas espalhados pelo país afora, tem seu público cativo e são capazes de se sustentarem com a sua arte? Músicos, atores, cantores dos quatro cantos do país levam a sua arte, conquistam o sucesso, tem seus talentos reconhecidos, mas não estão ou nem chegam a grande mídia e passam longe do eixo Rio-São Paulo, por isso eles não tem sucesso?

É certo que a concentração populacional no eixo Rio-São Paulo contribui para que essa impressão seja altamente divulgada, mas, acontece que o Brasil não é só Rio ou São Paulo, um país de dimensões continentais como o nosso não pode medir o sucesso de um artista apenas por ele estar ou não no circuito Rio-São Paulo. Há vida artística em outros centros e rincões nesta nossa terrinha, sabiam?

É óbvio que a exposição de um artista na grande mídia e a sua circulação nos eventos culturais que acontecem no eixo Rio-São Paulo, dão um enorme impulso em suas carreiras, pois a divulgação para uma massa populacional de alto poder aquisitivo e de grande influência na cultura no país, o projetam a um enorme sucesso, ás vezes até, os levando a uma fama inesperada. Mas, será que só assim o artista tem sucesso?

Talvez o grande equívoco e o que provoque certa confusão seja a questão do que venha a ser fama e do que venha a ser sucesso. Ter popularidade, nem sempre significa ser bem sucedido na sua arte ou em qualquer profissão que seja, pois o que tem de celebridade instantânea que pipoca na grande mídia a custa de barracos, fofocas e de um corpo bonito, que não é artista, mas vive ocupando espaço de quem é, é um absurdo!

O sucesso não está na grande mídia e nem circula exclusivamente no eixo Rio-São Paulo. O sucesso de um artista também não se mede pelo espaço que ele tem na grande mídia, ou na sua exposição em programa x ou y, principalmente nos dias de hoje, com o evento da internet, muitos sucessos conquistados pela rede acabam pinçados do submundo das artes para uma divulgação em rede nacional.

Portanto, ter chegado a grande mídia, ter alcançado a fama, ver amplificado o seu talento e se sentir recompensado por todo o seu esforço, não significa que enfim o artista conquistou o sucesso, pois o sucesso já foi conquistado lá trás, a custa de muito trabalho e dedicação. O artista que acredita no seu talento sabe que o verdadeiro sucesso está no reconhecimento do seu trabalho e que nem sempre popularidade é sinônimo de sucesso.

Escrito por Paulo Sacaldassy

Colaborou: Poucas Palavras de Paulo Sacaldassy; Foto: Peça "A Serpente"

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

DOIS BRASIS, DUAS REALIDADES!


Em um país continental como o nosso, manter a unidade não é uma tarefa assim tão fácil, pois, até mesmo a nossa língua, a portuguesa, tem lá as suas peculiaridades e características de acordo com a cultura local. Mas o que não pode acontecer é vivermos em dois Brasis e termos duas realidades. Há de se pensar como unidade para gerar oportunidades para todos e, acima de tudo, valorizar a cultura de cada lugar.

Enquanto a corrupção impera e o nosso dinheiro escoa pelos ralos, crianças do interior deste imenso país crescem sem acesso á uma educação de qualidade e sem ter direito algum a cultura. E, aqueles que, voluntariamente, doam parte de seus dias para oferecer algo para as crianças, sofrem pela falta de apoio e de dinheiro. Há muita vontade, mas quem vive longe das capitais, conhece bem esses dois Brasis e suas duas realidades.

Já dizia Monteiro Lobato: “um país se faz com homens e livros”, mas, pena que os homens que alcançam o poder não conseguem compreender a profundidade do que disse Monteiro Lobato no século passado, e a situação é ainda pior quando estes homens, vestidos de poder, estão à frente de pequenas cidades desse imenso país, o que esperar?

Teatro, música, dança, literatura… como fazer tudo isso chegar aos rincões do Brasil, se até quem mora em comunidades carentes nas grandes cidades também enfrenta a mesma dificuldade? O acesso á cultura e educação é algo tão precioso e fundamental para a unidade de um país que não podem estar restritos aos mais abastados e favorecidos e ser tão desprezados pelos homens do poder. Até quando viveremos dois Brasis?

O crescimento econômico, os ganhos financeiros e as mudanças de classe social formam um cenário bem favorável para transformar os dois Brasis em um só e unificar as realidades, então, ao invés de pactuar com desvios de verbas, abusos de poder, censuras descabidas, é chegada a hora desses homens do poder darem ao povo, muito mais do que bolsas e auxílios, pois conhecimento e cultura são ferramentas para um vida inteira.

Não pensem que o povo quer só pão e circo, o povo quer conhecer a história do pão, a história do circo, quer ouvir uma boa música, assistir ao Balé Quebra-Nozes, ou quem sabe assistir a um Shakespeare, hein? O povo quer conhecer Monet, Van Gogh, Renoir, quer saber de Charles Chaplin, de Godat, de Fellini, saber mais de Monalisa, da Capela Cistina e muito mais, portanto, é preciso dar isso à todos e não à poucos.

Só assim, com cultura e educação que será possível transformar este país continental em um só. Portanto, que os homens do poder olhem de fato para os interiores, do país e de si mesmos, fazendo o que a muito já deveria ter sido feito, transformar esses dois Brasis e suas duas realidades em um verdadeiro país de oportunidades iguais, pelo menos em termos de educação e cultura.

Escrito por Paulo Sacaldassy

Colaborou: Poucas Palavras de Paulo Sacaldassy; Foto: Cena de "O Amargo Santo da Purificação"

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

TODO MUNDO QUER SER CELEBRIDADE


Nunca isso foi deste jeito, não faz muito tempo á arte era uma coisa totalmente diferente e o artista tinha o seu valor, mas de uns tempos pra cá a coisa degringolou de tal forma que as pessoas perderam a noção do que é ser um artista. A enxurrada de notícias sobre as futilidades da vida de celebridades instantâneas fabricadas pela mídia é tão grande, que a população acaba dando notoriedade a quem não tem nada para mostrar além de um par de seios siliconados, deixando de lado aquele que faz arte de verdade.

E a coisa já ganhou proporções estratosféricas e beira às raias do incontrolável, tamanha é a sede por notoriedade que se vê nos dias de hoje. Agora todo mundo quer ser a celebridade da hora, e mais e mais as mídias nos enche com banalidades, deixando de dar espaço aos artistas de verdade, que continuam nos submundos das cidades mendigando um pouco de reconhecimento. Ser artista parece que está fora de moda.

São raros os jovens que ainda buscam investir em algum de seus talentos, pois é muito mais fácil ficar famoso postando vídeos bizarros na internet, ou coisas do tipo. Vale qualquer coisa para aparecer e quando digo qualquer coisa, é qualquer coisa mesmo. E o pior é que a mídia, com a sua caixa de ressonância faz dessas pessoas, celebridades da hora e elas jamais quererão saber deoutra coisa, senão procurar estar na crista da onda.

E o povo, reverberando o que a mídia estimula, dá à essas celebridades da hora, ares de artista, quer tirar foto, quer saber notícias da vida, as fofocas, as encrencas que elas se envolvem, assuntos de fuxico da vida alheia, pois é só isso que essas pessoas podem dar e mais nada. Pergunta pro povo quem ganhou o reality show tal, ele responde na lata. Mas são poucos os que sabem nomes de artistas, principalmente quando estes estão longe da mídia.

É muito triste ver que o interesse pelo nada é maior do que o interesse por qualquer arte, parece mesmo que estamos no fim dos tempos. Tirando as guerras e a corrupção que escancara a desfaçatez dos políticos deste país, as notícias sobre as celebridades da hora entopem os portais da internet, estimulando mais e mais o povo a querer se igualar à elas e ser a próxima celebridade da hora. A mídia está criando um exército de monstros.

O estimulo ao interesse pelo fútil e o banal, vai criando uma geração descompromissada e despreocupada em aprender, em querer desenvolver algum talento, em querer estudar para ser um artista de verdade, em obter cultura que o engrandeça como um Ser humano pensante e o torne capaz de participar da evolução de seu país. A importância demasiada à essas celebridades só vem a contribuir para emburrar mais e mais a população.

Espero imensamente que esse seja um movimento passageiro, (embora já esteja demorando muito para acabar) onde a mídia explore ao máximo a exposição da futilidade do Ser humano vazio, esgotando assim, de uma vez por todas, o interesse pelo nada, e o artista de verdade, recupere o seu espaço e tenha de novo o reconhecimento por todo o seu estudo, por todo o seu empenho, por toda a sua arte.

Escrito por Paulo Sacaldassy

Colaborou: Poucas Palavras de Paulo Sacaldassy; Foto: Geisy Arruda com o professor de interpretação e corpo André Grecco, no curso de teatro na Oficina de Atores Nilton Travessos, em São Paulo.