segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

ARTISTA OU CELEBRIDADE?


As coisas hoje em dia estão de tal forma, que até parece que tudo está de pernas para o ar, ou fora da ordem, mesmo! Há uma confusão enorme entre o que é ser um artista e ser uma celebridade, principalmente essas instantâneas que pipocam de tempos em tempos e tomam conta de toda mídia.

Celebridade, qualquer um pode se tornar, seja lá participando de programas de “reality shows”, casando com alguém influente, armando barracos, correndo atrás de jogador de futebol, até político vira celebridade. Tem até certos artistas, que se acham mais celebridades do que artistas. Bem, esses, na verdade, não sabem direito o que querem: se o difícil sacerdócio da arte, ou os reluzentes holofotes das câmeras.

É certo que essa coisa de ser famoso, se tornar conhecido por um grande número de pessoas, ser popular, está no ser humano, todo mundo quer aparecer e ser conhecido, mas tem gente que é capaz de tudo. É uma loucura, loucura, loucura, como diz Luciano Huck. Só que muitas dessas celebridades, as instantâneas, principalmente, surgidas em programas de “reality shows” e que usufruem da grande popularidade alcançada, de uma hora para outra acham que são artistas, pode?

O pior é que muitos compram essa idéia e é aí que se faz a confusão. Quem até então era celebridade instantânea, vira artista revelação, e vai fazer teatro, vai fazer cinema, vai fazer televisão e o que se vê, em termos de qualidade artística, é deprimente! Jogam a arte de interpretar na lata no lixo. E não me venham dizer que fulano tem talento e é esforçado, pois isso não se sobrepõe aos anos de estudo e dedicação que um artista tem de ter.

Acho que não deviam misturar as estações. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa: celebridade é celebridade e artista é artista. A diferença é tão clara, se pode ver à olhos nus. Celebridade só quer uma coisa, está na mídia, quanto mais, melhor, seja lá fazendo o quê e do jeito que for! Já o artista nem sempre precisa aparecer, o reconhecimento de sua obra, muitas vezes, já basta!

Não se pode quer ser artista se lançando na mídia como uma celebridade, o caminho é justamente o contrário. É o trabalho de um grande artista, que de tão reconhecido, o faz se tornar uma celebridade, não apenas pelo que ele é, mas também pelo que ele faz. A arte dele o faz tão imenso que a mídia tratará de torná-lo popular, tão e mais, como qualquer uma dessas celebridades que pipocam volta e meio no mundo artístico.

Ser artista é uma coisa muito séria, que demanda muitos sacrifícios, muitos degraus a subir, um caminho longo a percorrer, muita abdicação, muito estudo e muito trabalho, por isso, tem-se que prestar muita atenção e saber separar o joio do trigo, pois artista tem alma e celebridade tem apenas um corpo ou uma carinha botina, e nada mais.

Escrito por Paulo Sacaldassy

Colaborou: Oficina de Teatro; Foto: Espetáculo "O Grande Cerimonial" (2010)

sábado, 25 de dezembro de 2010

A MAGIA DA BROADWAY


Quando se visita Nova Iorque pela primeira vez, torna-se imprescindível visitar a Broadway, o símbolo mundialmente famoso da magia do teatro. Antes dos espectáculos começarem, acendem-se milhões de lâmpadas que transformam a noite em dia; nessa hora, a Broadway torna-se verdadeiramente um local encantado.

Em plena Manhattan, nesse bairro dos teatros e cinemas encontram-se mais de 30 casas de espectáculos, localizadas a Leste e Oeste da longa avenida em diagonal chamada Broadway, entre as ruas 41 e 53. Um passeio por essas ruas equivale a percorrer a história do teatro. Por exemplo, no Nederlander, na rua 41, outrora chamado National, Orson Welles, então com 22 anos, encenou em 1937 a sua controversa produção do Julius César, na qual os soldados de César envergavam uniformes fascistas.

Grande parte da mística da Broadway deriva da lendária rua 42, exaltada no musical de 1980, do mesmo nome. Essa comédia musical, de ritmo contagiante, apresentava a Broadway como o objectivo máximo daqueles que aspiravam tornarem-se estrelas do palco. Praticamente todos os anos, jovens desconhecidos tornam-se famosos. Há mais de meio século, um jovem cantor magrinho fez sua grande estreia cantando no show de Benny Goodman, no agora desaparecido Paramount Theater, na rua 43. O seu nome, evidentemente, era Frank Sinatra.

E a corista de The Pajama Game, de 1954, que era suplente de Carol Haney, a protagonista número dois? Carol adoeceu, a corista entrou em cena e dançou e cantou maravilhosamente bem. Ela chamava-se Shirley MacLaine; havia um produtor cinematográfico assistindo ao espectáculo, e foi assim que ela se tornou uma grande estrela do palco e da tela.


A Times Square nasceu em 1904, quando o New York Times edificou o prédio e mudou o nome da praça, que dantes se chamava Long Acre Square; é ali que a Broadway bifurca com a Sétima Avenida. Para Oeste, ficava naquele tempo a chamada «Cozinha do Inferno» (Hell's Kitchen), desordeiro bairro operário frequentemente retratado nos melodramas de Jimmy Cagney. A um quarteirão para Leste, ficava a linha férrea elevada da Sexta Avenida. Passado pouco tempo, na Times Square e nas ruas vizinhas foram construídos novos e elegantes teatros, com os elaborados letreiros de néon que deram à Broadway o cognome duradouro de «Grande Caminho Branco» (The Great White Way).

Em 1908, Florenz Ziegfeld, produtor das famosas Ziegfeld Follies, colocou o maior painel luminoso jamais visto até então (com 24 m de comprimento e 14 m de altura) na fachada do seu New York Theater. Continha 2.973 m2 de vidro, pesava oito toneladas e levou 18 km de fio eléctrico. Em torno das suas letras gigantescas, um desenho em ziguezague de raios faiscantes parecia explodir, num irromper de chamas que lambiam o título da peça, Miss Innocence, e o nome da estrela, Anna Held, famosa por banhar-se em leite como a lendária Cleópatra.

Se a Times Square é o coração da Broadway, então uma estátua de George M. Cohan na sua extremidade norte simboliza o seu pulsar. Este extraordinário empresário, compositor, director, cantor e bailarino morreu em 1942, mas continua presente; é conhecido no mundo inteiro através de um filme de Hollywood, Yankee Doodle Dandy, e de um musical da Broadway, George M.! Os que nunca conheceram o verdadeiro George M. Cohan viram Jimmy Cagney, Joel Grey ou Mickey Rooney no papel dele.


A rua 44 é uma das ruas da Broadway preferidas por muitos turistas, onde têm lugar as lendárias festas de estreia no Sardi's, «a renomada sala de jantar das artes do teatro». Há seis teatros na rua 44, incluindo o Helen Hayes, uma sala internacional, o Majestic, cenário de 42nd Street, o Broadhurst, onde a comédia de Neil Simon, Broadway Bound, muito naturalmente conquistou a Broadway. E há o Shubert, onde A Chorus Line, uma exaltação aos musicais da Broadway, esgotou lotações durante vários anos.


A maravilhosa continuidade do teatro mundial está ilustrada na rua 45. Aqui fica o Booth Theater, assim baptizado em honra ao grande actor do século XIX, Edwin Booth, cujo Hamlet esteve em cena durante 100 representações consecutivas. John Barrymore estreou no Hamlet em 1922, mas já falava em abandonar o papel após umas 60 actuações. Uma delegação de personagens do teatro pressionou-o para desistir ao fim da 90.a actuação, pois ninguém devia bater o recorde de Booth. "Cavalheiros", replicou Barrymore. "Parem de viver no passado. Representarei o Hamlet exactamente 101 vezes." E assim fez.

No Imperial, Drood, a versão musical do romance que Charles Dickens deixou inacabado ao morrer, mostrava uma abordagem inglesa de music-hall ao enredo gótico do romance, rematada por um número irresistível: a cena era interrompida em plena actuação para assinalar o ponto em que ficou o romance de Dickens. Os actores dirigiam-se então ao público, solicitando uma votação para determinar quem era o assassino e, consequentemente, qual seria o fim. "A atmosfera do teatro", disse o Times, "Fica tão divertida como se se tratasse de uma audiência composta exclusivamente por ginasiais."

Uma marca de qualidade da Broadway são os bons elencos. Em 1986, Arsenic and Old Lace, uma comédia acerca de duas velhinhas que serviam vinho envenenado aos seus hóspedes, esteve em cena no Teatro da rua 46, com Jean Stapleton, a Edith Bunker da televisão. Quando estreou, em 1941, o papel do sobrinho louco e homicida das velhas foi desempenhado por Boris Karloff, o monstruoso Frankenstein do famoso filme de 1931. Isso deu a Karloff, 10 anos mais tarde, uma deixa imortal: "Matei-o porque ele disse que eu era parecido com Boris Karloff."

O Biltmore, o Atkinson, o Edison, o Barrymore e o Palace estão na rua 47. Para aqui têm vindo grandes peças de todo o mundo. Da França, Red Claves, de Jean-Paul Sartre, pro­tagonizada por Charles Boyer, veio para o Mansfield, cujo nome foi substituído em 1960 em homenagem ao crítico de teatro do New York Times, Brooks Atkinson. No Edison estiveram duas peças do dramaturgo sul-africano Athol Fugard, Sizwe Banzi is Dead e The Island.

O Barrymore deve o seu nome a Ethel, que com os seus irmãos Lionel e John formou um formidável trio de actores. Isso porque os irmãos Shubert prometeram a Ethel dar o seu nome a um teatro, se ela assinasse um contrato com eles. Ela assim fez, e eles cumpriram o prometido; Ethel inaugurou o teatro a 20 de Dezembro de 1928, com The Kingdom of God. O recorde do teatro, porém, foi detido de 1947 a 1979 pela peça de Tennessee Williams, A Streetcar Named Desire (Um Bonde Chamado Desejo), que estreou a três de Dezembro de 1947, com Jessica Tandy, Kim Hunter, Karl Malden e Marlon Brando, que tinha na época apenas 23 anos, num inesquecível desempenho como Stanley Kowalski. (Em 1979, este recorde foi finalmente batido pelas 872 representações de I Love My Wife.)

Há 55 anos, o Palace arriscou em Judy Garland, que estava com 29 anos e tinha sido despedida pela MGM, pois as suas depressões nervosas haviam atrasado demasiados filmes. Judy tentara suicidar-se, e os seus amigos não estavam seguros de que ela tivesse suficiente autoconfiança para voltar ao palco. Mas o Palace passou a ter lotações esgotadas em todas as sessões; os fãs de Judy estavam decididos a encorajá-la, com vibrantes aplausos.

O último dia de Judy Garland no Palace, 24 de Novembro de 1951, foi um momento alto na história da Broadway. Judy terminou o espectáculo cantando A Couple of Swells, de Irving Berlin, vestida de mendiga, exactamente como cantara com Fred Astaire no filme Easter Parade. Chamada a bisar, sentou-se simplesmente na beira do palco e cantou Over the Rainbow. Houve momentos em que chorou, e momentos em que foi o público quem se emocionou até às lágrimas. Foi três vezes chamada ao palco pelos aplausos, mas mesmo assim a plateia não se ia embora. Judy estava manifestamente exausta, de modo que alguém gritou: "Agora somos nós que vamos cantar para Judy!" Com a orquestra tocando Auld Lang Syne, os espectadores começaram a cantar, com a voz de ouro do grande tenor lírico Lauritz Melchior soando acima das outras todas. Numa sala apinhada, 1.686 pessoas, incluindo muitas que adoravam Judy Garland desde os tempos em que ela era a Dorothy do filme O Feiticeiro de Oz, aplaudiam e soluçavam abertamente.

No Teatro Cort, na rua 48, a peça »O Diário de Anne Frank», em 1957, transportava-nos instantaneamente àquele sótão em Amesterdão, onde uma adolescente de 12 anos e a sua família se escondiam dos nazistas. Nessa história verídica, os nazistas conseguem descobri-los, é claro, e levam Anne, cujo papel era desempenhado por Susan Strasberg, para um campo de concentração, onde ela morre. Quem não se lembra de Joseph Schildkraut no papel do pai de Anne, lendo a sua derradeira anotação no diário: «Apesar de tudo, continuo acreditando que as pessoas no fundo são boas.», mas «Ela me deixa envergonhado.» O rio Mississippi foi evocado no palco do Teatro Eugene O'Neill, na rua 49, em Big River, peça baseada no Huckleberry Finn, de Mark Twain. Show Boat, o melhor musical sobre o rio Mississippi, estreou em 1927, mas foi constantemente levado novamente à cena inúmeras vezes. Basta dizer «He just keeps rollin' a!ong» e o mundo inteiro saberá que se está falando de «Ol'Man Riven».


No inverno de 1986-1987, a peça de Bernard Shaw, You Never Can Tell esteve em cena no Circle In The Square, na rua 50. A presença de Shaw na Broadway data de Arms and the Man, de 1894. Em 1957, My Pair Lady, adaptado do Pigmaleão, de Shaw, no Mark Hellinger Theater, na rua 51, foi outra peça que esteve em cena e que fez igualmente grande sucesso. Quando se visita pela primeira vez Nova Iorque, deve-se visitar obrigatoriamente o American National Theater and Academy (ANTA), na rua 52. Neste local emblemático, passaram peças como: Our Town, com Henry Fonda no papel de director de cena, e Harvey, com James Stewart como Elwood P. Dowd e Helen Hayes como Veta Louise Simmons.

Também no teatro da Broadway na esquina da rua 53, a peça Les Miserables, versão musical do romance clássico francês de Victor Hugo, que fora o sucesso londrino de 1986, ao estrear nos Estados Unidos da América em Março de 1987, primou por um sucesso extremo. As suas vendas adiantadas de entradas, que totalizaram uma soma de 11 milhões de dólares, registaram o maior recorde de todos os tempos da Broadway. Todas as noites, multidões de espectadores reuniam-se sob a bandeira tricolor francesa, gigantesca e esfarrapada, suspensa na entrada do teatro, e entravam na fila para ver as barricadas de rua e os esgotos de Paris, evocados num palco da Broadway. Também no começo da década de 1980, estava em cena aqui, a peça Evita, com Patty LuPone cantando, noite após noite, Don't cry for me, Argentina ...

Mas para visitar aquele que é, por muitos, considerado como a quintessência dos teatros da Broadway, dever-se-á visitar o Winter Garden, no nº 1634 da Broadway. Al Jolson inaugurou-o a 20 de Março de 1911. Nesse palco, abriu ele inúmeras vezes os braços, com as mãos calçadas de imaculadas luvas brancas, e gritou a frase histórica: «Pessoal! Vocês ainda não ouviram nada!


Na década de 1980, o Winter Garden tornou-se palco de um belíssimo musical britânico da autoria de Andrew Lloyd Webber, extraído de Old Possum's Book of Practical Cats, de T. S. Eliot. O musical chama-se Cats, e a Broadway chorava, bem como os diversos locais do mundo por onde esta peça tem passado, quando a gatinha maltratada, chamada Grizabella, pára diante do holofote e principia a sua canção. Com Cats, chega ao fim este breve artigo dedicado às cerca de três dezenas de salas de espectáculos numa dúzia de ruas, que no seu conjunto se chamam Broadway. É aqui o mundo dos sonhos!

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

AMADOR OU PROFISSIONAL?


Na maioria das vezes, as pessoas são apresentadas ao teatro ainda na escola. Muitos nem se dão contam que um dia podem se tornar atores ou atrizes de sucesso. A aula, regada a uma peça de teatro, acaba sendo uma grande “brincadeira”, mesmo que o exercício seja levado a sério, pois alguns mais tímidos e outros nem tanto, usam a apresentação para se provocarem durante o ano.

Passada essa fase escolar, onde se é apresentado ao teatro sem compromisso algum, sempre tem alguém no grupo que leva aquela “brincadeira” um pouco mais a sério, e resolve procurar um grupo de teatro de verdade, pois sua alma foi tocada pelo bichinho do teatro.

São muitos os grupos que de uma maneira amadora conseguem fazer teatro de uma forma competente, mesmo com todas as dificuldades inerentes ao teatro, como a falta de espaço para ensaios, a falta de verba e as dificuldades de espaços para apresentação. Muitos são de muito bom nível, e são deles, que saem quase sempre, os atores e atrizes que chegarão a televisão.

Quando se está em um grupo amador, onde se faz teatro por amor e não se ganha nada por isso, tem-se a chance de aprender de verdade e na prática, as dificuldades de se fazer teatro em nosso país. Muitos optam por essa vida de teatro amador por toda a sua existência, mas outros, querem fazer desta arte o seu meio de subsistência, e é aí que depara-se com um grande dilema. Fazer teatro de uma forma amadora apenas para alimentar a alma artística ou partir de vez para uma carreira profissional e enfrentar todas as suas dificuldades?

Muitos jovens que atuam em grupos amadores, e vêem outros jovens fazendo sucesso na televisão, querem também fazer parte deste mundo, o quanto antes, melhor, e isso não é de hoje, pois, quem gosta de teatro de verdade, vive ou viveu um dia esse dilema. Mas quase sempre, o peso das responsabilidades, acaba interrompendo carreiras brilhantes, e muitas vezes, o teatro deixa de conhecer talentos que, ou não tiveram, a coragem suficiente para enfrentar as dificuldades, ou optaram por não correr riscos, e continuar apenas o seu teatro de forma amadora.

Acho que não se pode condenar, nem um, nem outro, cada qual deve escolher para a sua vida o que realmente quer no momento em que vive, as vezes, não á a hora de embarcar em uma aventura, e se jogar no mundo do teatro de uma forma desesperada, pois corre-se o risco de vender a alma ao diabo, e se perder na essência de sua alma de artista. As vezes é melhor trabalhar com o teatro amadorísticamente, mas consciente de estar preparado, para na oportunidade certa, encarar o desafio de viver profissionalmente do teatro.

A escolha é difícil, ainda mais quando se é jovem, por isso, não há a necessidade de precipitação, pois a história mostra que o teatro está cheio de atores e atrizes que tinham uma outra profissão, e no momento certo, deixaram o amadorismo para serem profissionais do teatro. E na maioria das vezes, com muito sucesso.

Escrito por Paulo Sacaldassy

Colaborou: Oficina de Teatro; Foto: Espetáculo "Parada 400: Convém Tirar os Sapatos" da Santa Estação Cia de Teatro, de Porto Alegre – RS. Fotografado no Espaço Parlapatões, São Paulo – SP.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O TEATRO MUSICAL


Está aí um gênero das artes cênicas que hoje em dia me causa certo espanto, pois sem nenhuma tradição em nossos palcos, pois passa longe do que foi o Teatro de Revista e, somente a custa de remontagens de espetáculos consagrados da “broadway”, o Teatro Musical vem ganhando a simpatia tanto da mídia, quanto da crítica. Da até a impressão de que esse gênero é algo superior à arte do teatro.

É claro que reconheço a complexidade e a dificuldade de se montar um espetáculo musical, pois reunir artistas que possuam potencial para cantar, dançar e ainda interpretar não é nada fácil. Encontrar alguém que só interprete já anda tão difícil! Sem contar que montar um espetáculo desse gênero não é para qualquer um. É coisa para peixe grande.

São espetáculos caros, que precisam de grandes patrocinadores, grandes cotas de incentivos, é muito dinheiro em jogo. Talvez esteja aí a razão de tanta popularidade de um gênero que ganhou notoriedade nos palcos de Nova York. O teatro musical feito hoje no Brasil, aliás, importado pelo Brasil é muito mais uma questão de negócio, do que uma questão de teatro.

Sem contar que os espetáculos desse gênero são elitistas, pois não é qualquer um que pode desembolsar a exorbitante quantia para pagar os seus ingressos. A mídia o tem sempre como a melhor opção de entretenimento entre todos os espetáculos teatrais em cartaz e o povo, ora, o povo!...

Se o teatro infantil é o patinho feio das artes cênicas, o teatro musical vem ganhando ares de filho perfeito. Como espetáculo, não há o que questionar. As trilhas são bem cuidadas, os figurinos, lindíssimos, os cenários, monstruosos, tudo para encantar os olhos do público. Pena que é tudo importado e sempre muito caro.

Longe de mim, desmerecer o gênero musical, o acho até bem interessante, quando levamos em conta a questão da formação do ator. Cantar, dançar, interpretar é tudo que um bom ator precisa aprender. Quisera todo ator ter a oportunidade de desfrutar da prática de tamanho exercício artístico. Quisera todo o povo ter a oportunidade de desfrutar do glamour de assistir a um espetáculo musical.

Esse Teatro musical pode até encantar os olhos, pode até conter elementos da arte do teatro, mas sempre será um gênero das artes cênicas, a arte do Teatro será sempre maior, mesmo que a mídia teime em vender um espetáculo musical como Teatro. Teatro é Sófocles, Eurípidis, Shakespeare, Nelson Rodrigues. Teatro musical é apenas um espetáculo de entretenimento.

Escrito por Paulo Sacaldassy

Colaborou: Oficina de Teatro; Foto: Espetáculo "Lipstick Station" da Santa Estação Cia de Teatro, de Porto Alegre (RS). Fotografado durante a mostra de repertórtio do grupo no Espaço Parlapatões, São Paulo (SP).

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

O PALHAÇO


O dia amanheceu chuvoso e frio, o que por si só já estimulava uns minutos a mais de sono. Mas, aquele cidadão já idoso, que era tentado a permanecer mais um pouco embaixo dos lençóis, não podia se dar esse direito. A labuta de todo dia lhe chamava a cumprir suas obrigações. Mesmo com o passar dos anos, ainda se fazia necessária. Como é com outros tantos trabalhadores.

Só que ele não era um trabalhador comum. Nem seu trabalho era comum. Aliás, muitos, na verdade, nem consideram que seja um trabalho, mas é! Acho até que o melhor de todos os trabalhos. Só que sem direito a folgas, sem direito a lágrimas, sem direito a adoecer, nem mesmo ficar triste, por mais tristeza que possa sentir. Mas, apesar de todas as adversidades e condições, ele se pôs de pé e saiu para mais um dia de trabalho.

Com andar vagaroso de quem já correu muito, ele seguiu calmamente até chegar em seu pequeno Camarim. Sim, aquele velho cidadão era um artista! Mas não um artista qualquer, ele era o verdadeiro artista. Calmamente, como tudo que ele fazia, trocou sua roupa de cidadão comum e vestiu o seu figurino de cores vivas e alegres. Nada condizente com toda aquela melancolia estampada em seu rosto.

Os cabelos esbranquiçados, o olhar cansado, o rosto marcado, aos poucos iam se transformando em frente ao velho espelho. Cada cor pintada em sua face tinha o poder de rejuvenecê-lo e dar um novo brilho ao seu olhar. Na ponta do nariz enrugado, uma bola vermelha, nos pés, um par de enormes sapatos e sob os cabelos esbranquiçados, uma embaraçada peruca. E refletido no espelho, um enorme sorriso. Um riso de quem irradia felicidade.

Então, ele adentrou ao picadeiro, lépido e fagueiro como quem tem uma juventude eterna, meio que destrambelhado, com toda certeza, propositada-mente, pois, sabia que as gargalhadas não demorariam a encher todo o ambiente. E dito e feito. Não demorou muito para que o único som ouvido fosse o som de enormes gargalhadas, sem composturas e desavergonhadas. Pareciam todos, crianças inocentes. Ah, como foi bom!

Saciados de felicidades, todos que gargalhavam, deixavam o local com as almas lavadas, ávidos para retornarem o mais breve possível. Enquanto do outro lado, no pequeno camarim, em frente ao velho espelho, quem fez a alegria de tantos, se desfazia do figurino, da maquiagem, e da alegria e voltava a sua vida comum.

Escrito por Paulo Sacaldassy

Colaborou: Oficina de Teatro; Foto: Espetáculo "Sessenta Minutos Para o Fim"

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

ARTE DÁ TRABALHO


Durante muito tempo eu achei que para realizar uma obra de arte perfeita, ou perto disso, o empenho e trabalho não faziam tanta diferença. Achava que certas obras só eram possíveis graças ao gênio de seus criadores, que eram capazes de criar genialidades sem se esforçar. Mas quando eu também comecei a participar da criação, seja no teatro ou no cinema, no meu caso, percebi que é a dedicação e empenho que fazem toda a diferença.

É claro que os gênios existem. Mas aquela história de 10% inspiração e 90% transpiração é muito verdade. Porque até para os gênios é preciso trabalho. Muito trabalho. É a dedicação a uma obra que fará dela boa ou ruim. E mesmo que haja talento, sem trabalho não basta.

Há alguns meses atrás eu acompanhei os ensaios de uma peça de teatro. Uma peça com elenco famoso e de talento reconhecido em sua maioria. Acompanhei os ensaios até a pré-estréia e estréia. E nas apresentações o que eu via nos ensaios se confirmou. O empenho por parte da maioria do elenco não era grande. Como se o fato de só serem eles mesmos bastasse para que a peça fosse boa. Mas o que ocorreu não foi isso. E o resultado foi a meu ver e de muitos outros, insatisfatório.

Eu acredito muito no trabalho árduo na criação. E falando das artes dramáticas, sou um defensor dos ensaios e principalmente, da imersão naquele texto e mundo que será retratado. Quanto mais propriedade o ator tiver sobre a obra e mesmo a equipe que fica atrás do palco ou câmera, maior a chance do resultado final ser mais convincente e envolvente para o espectador.

Nesse nosso mundo muitas vezes vemos atores serem escalados por seu talento. Mas muitas dessas vezes, o ator, apesar de bom, não se encaixa bem no personagem. Ou o pior, é uma pessoa muito difícil de lidar. E isso não vale só para os atores e sim para qualquer pessoa de uma equipe. Uma pessoa considerada talentosa, mas que traz muitos problemas de convivência, é uma pessoa que não considero recrutar. E quem já passou por uma situação dessas talvez me entenda melhor.

Creio que os malefícios acabam sendo maiores que os benefícios. E mesmo que o desempenho desse profissional seja muito bom, pode afetar o desempenho dos outros envolvidos. E isso tem a ver também com a dedicação e dessa experiência teatral que citei anteriormente. Há muitos atores que já têm certa notoriedade e que por isso acham que não têm que se esforçar mais. Que qualquer coisa que apresentem já valerá. Mas isso não poderia ser mais equivocado.

Afinal, os grandes gênios das artes são reconhecidos também por sua total imersão em seus trabalhos. Toda aquela genialidade passa a não ser tão sobrenatural aos nossos olhos quando conhecemos o processo do artista e vemos a quantidade de tempo dedicada à obra.

Talento há. Alguns têm mais, outros menos. Mas não se deixe enganar. O que pode fazer toda a diferença é o seu empenho. Tendo talento ou não.

Escrito por Felipe Fonseca

Colaborou: Oficina de Teatro; Foto: Bastidores da temporada paulistana do Théâtre du Soleil, em 2007.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

SELO VENTOS NA PRIMAVERA


O gigante da poesia, Arnoldo Pimentel, nos concedeu o selo official de seu Blog o "Ventos na Primavera". A Cia. De Teatro Atemporal está muito honrada e lisonjeada, com o tamanho reconhecimento e admiração de Arnoldo Pimentel e de todos que se alimentam do que a arte tem de melhor, aqui em nosso Blog.

SELOS POR ARNOLDO PIMENTEL






Arnoldo Pimentel, nosso queridíssimo e fiel amigo do Blog "Ventos na Primavera" presenteou o Blog da Cia. De Teatro Atemporal com os selos acima. Muito obrigado, Arnoldo! Parabéns e muito sucesso!