segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

ARTE DÁ TRABALHO


Durante muito tempo eu achei que para realizar uma obra de arte perfeita, ou perto disso, o empenho e trabalho não faziam tanta diferença. Achava que certas obras só eram possíveis graças ao gênio de seus criadores, que eram capazes de criar genialidades sem se esforçar. Mas quando eu também comecei a participar da criação, seja no teatro ou no cinema, no meu caso, percebi que é a dedicação e empenho que fazem toda a diferença.

É claro que os gênios existem. Mas aquela história de 10% inspiração e 90% transpiração é muito verdade. Porque até para os gênios é preciso trabalho. Muito trabalho. É a dedicação a uma obra que fará dela boa ou ruim. E mesmo que haja talento, sem trabalho não basta.

Há alguns meses atrás eu acompanhei os ensaios de uma peça de teatro. Uma peça com elenco famoso e de talento reconhecido em sua maioria. Acompanhei os ensaios até a pré-estréia e estréia. E nas apresentações o que eu via nos ensaios se confirmou. O empenho por parte da maioria do elenco não era grande. Como se o fato de só serem eles mesmos bastasse para que a peça fosse boa. Mas o que ocorreu não foi isso. E o resultado foi a meu ver e de muitos outros, insatisfatório.

Eu acredito muito no trabalho árduo na criação. E falando das artes dramáticas, sou um defensor dos ensaios e principalmente, da imersão naquele texto e mundo que será retratado. Quanto mais propriedade o ator tiver sobre a obra e mesmo a equipe que fica atrás do palco ou câmera, maior a chance do resultado final ser mais convincente e envolvente para o espectador.

Nesse nosso mundo muitas vezes vemos atores serem escalados por seu talento. Mas muitas dessas vezes, o ator, apesar de bom, não se encaixa bem no personagem. Ou o pior, é uma pessoa muito difícil de lidar. E isso não vale só para os atores e sim para qualquer pessoa de uma equipe. Uma pessoa considerada talentosa, mas que traz muitos problemas de convivência, é uma pessoa que não considero recrutar. E quem já passou por uma situação dessas talvez me entenda melhor.

Creio que os malefícios acabam sendo maiores que os benefícios. E mesmo que o desempenho desse profissional seja muito bom, pode afetar o desempenho dos outros envolvidos. E isso tem a ver também com a dedicação e dessa experiência teatral que citei anteriormente. Há muitos atores que já têm certa notoriedade e que por isso acham que não têm que se esforçar mais. Que qualquer coisa que apresentem já valerá. Mas isso não poderia ser mais equivocado.

Afinal, os grandes gênios das artes são reconhecidos também por sua total imersão em seus trabalhos. Toda aquela genialidade passa a não ser tão sobrenatural aos nossos olhos quando conhecemos o processo do artista e vemos a quantidade de tempo dedicada à obra.

Talento há. Alguns têm mais, outros menos. Mas não se deixe enganar. O que pode fazer toda a diferença é o seu empenho. Tendo talento ou não.

Escrito por Felipe Fonseca

Colaborou: Oficina de Teatro; Foto: Bastidores da temporada paulistana do Théâtre du Soleil, em 2007.

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