quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

O BEIJO EM CENA


Um seleto grupo foi testemunha. Em 1951, cerca de mil televisores captaram as imagens inéditas geradas ao vivo pela extinta TV Tupi: ia ao ar o primeiro beijo na televisão brasileira, inaugurada havia menos de um ano. Na novela Sua Vida Me Pertence, os lábios de Vida Alves e Walter Forster se encostaram delicadamente diante das câmeras.

Walter Foster e Vida Alves (foto acima) foram os protagonistas do primeiro beijo na TV brasileira, na novela "Sua Vida me Pertence" (1951). Esta cena, que para muitos telespectadores foi tido como um escândalo, surgindo muitos boatos e cartas enviadas à TV Tupi criticando a atitude dos dois atores.

Nenhum fotógrafo registrou o momento. Mesmo assim, a cena causou furor. “Houve um mini-escândalo”, lembra Vida Alves, 81 anos, que era recém-casada com um engenheiro italiano radicado no Brasil para viabilizar a montagem técnica da televisão. “Na Itália, o teatro e o cinema eram mais avançados, por isso ele entendeu”, conta a atriz.

Jô Soares: “Todos os beijos são técnicos. O mérito está na técnica de cada um"

Quarenta e nove anos se passaram, mas as cenas de beijo continuam a despertar polêmica e a mexer com a fantasia do telespectador. São para valer? Têm sentimento? Línguas se cruzam? “O beijo da ficção é totalmente cerebral. A cabeça pensa no melhor ângulo estético para o câmera, nas próximas falas e marcações. O beijo de verdade se concentra nos sentidos e busca o prazer”, explica a atriz Regina Duarte, 63 anos, 31 novelas no currículo e diversos personagens como mocinha na tevê.

Um dos muitos beijos, entre os personagens, Helena (Vera Fischer) e Edu (Reynaldo Gianecchini) na novela Laços de Família (2001), da Rede Globo

Será mesmo? A atriz Zezé Polessa, 56 anos, admite ter se empolgado em algumas cenas. “Acontece porque é bom. E geralmente o parceiro se empolga também”, entrega Zezé. “Quando isso ocorre, a gente aproveita e não conta para ninguém”, diz ela, que raramente passou um capítulo de Porto dos Milagres sem dar uns amassos em Eduardo Galvão, seu marido na trama. “A gente capricha, mas os beijos não chegam a ser reais como eram os do Reynaldo Gianecchini e da Vera Fischer.” Em Laços de Família, o casal Edu e Helena vivia tórridas cenas de amor. A fantasia se misturou com a vida real quando Vera e Gianecchini, na época casado com a jornalista Marília Gabriela, foram flagrados na festa de lançamento da novela trocando bitocas em público, bem longe do estúdio.

“O limite entre realidade e ficção parece tênue porque a tevê está dentro da casa das pessoas”, explica Mauro Alencar, doutorando em telenovelas pela Universidade de São Paulo (USP). “As pessoas acompanham a vida do ídolo como se fosse real”, acrescenta.

Guilherme Fontes e Sandy na novela Estrela-Guia (2001) , da Rede Globo

A torcida pelo primeiro beijo de Sandy, na época com 18 anos, e Guilherme Fontes, na época com 34, em Estrela-Guia, foi comparável à expectativa de um último capítulo de novela. Não por causa da personagem Cristal, mas por se tratar de Sandy – a namoradinha do Brasil. “Não teve nada demais, foi um beijo técnico, esteticamente perfeito no vídeo”, diz Guilherme. Em outras palavras, sem língua nem intimidade. “Não acho legal língua aparecendo”, argumenta o ator. Mas, com tanta proximidade, não é raro um par romântico de novela transfomar-se em casal na vida real.

No script, o autor estabelece apenas se o beijo é doce, passional ou violento. “Existe o beijo de verdade e o de mentira. Ao público, interessa ver a mentira bem mostrada. Não cabe a mim dizer se será técnico ou não”, afirma Carlos Lombardi, autor das novelas Quatro por Quatro, Kubanacan, Uga Uga, Pé na Jaca, dentre outras.

Perguntado sobre quem gostaria de beijar na ficção, o ator Leopoldo Pacheco (foto acima) respondeu: "Sônia Braga"

Antes de uma gravação, o diretor e os atores costumam definir se o beijo será para valer ou não. Curiosamente, às vezes, os relatos sobre um mesmo episódio são diferentes. “Para mim não tem beijo técnico, bateu na rede é gol”, disse a apresentadora Xuxa Meneghel, depois de protagonizar cenas quentes com o ator Luigi Baricelli no filme Xuxa Popstar. Baricelli garantiu que tudo foi estritamente técnico. “Não existe beijo de língua, acho feio”, afirma.

Jorge Fernando, diretor da Globo, sempre orienta os atores a entregarem-se de verdade ao contato físico das bocas. Na opinião dele, beijo técnico soa falso. “Rola um clima, mas é tanta gente vendo que a língua encolhe”, diverte-se Jorge Fernando. O diretor teatral José Celso Martinez Corrêa também é adepto do realismo. “Se a cena é intensa e não há entrega, isso pode prejudicar o resultado final. Beijo é beijo. Essa coisa técnica é invenção dos puritanos americanos dos anos 20”, diz o diretor.

Giane Albertoni (foto acima): “Não sei dar beijo de mentira. Aos 14 anos, beijei de verdade num comercial"

As cenas ardentes começaram a surgir na tevê brasileira no início dos anos 70. Os pares Jardel Filho e Sandra Bréa, de O Bem Amado (1973), e Armando Bogus e Sônia Braga, de Gabriela (1975), marcaram época como grandes casais eróticos. “Eram novelas exibidas às 22h”, lembra Mauro Alencar. Em A Moreninha (1975), trama de época que ia ao ar às 18h, o amor era apenas sugerido. A câmera enquadrava Nívea Maria e Mário Cardoso de longe, circulava o casal e assim transmitia um clima romântico. Nada muito diferente das inesquecíveis cenas de Vivien Leigh e Clark Gable no filme ...E o Vento Levou.

Os artistas admitem que ter alguma intimidade com o companheiro de cena ajuda a descontrair na hora agá. Mariana Ximenes, de 28 anos, beijou na tevê pela primeira vez na novela Fascinação (1998), do SBT. Seu par era Caio Blat, seu namorado na época. “Não deu para ser de verdade”, diz ela.

Tuca Andrada (foto acima), teve de beijar Miguel Falabella na ficção

De tanto beijar Miguel Falabella na peça Submarino, em 1997, Zezé Polessa diz que a amizade entre os dois estreitou. “Hoje somos muito ligados por causa daquelas cenas, que eram maravilhosas”, conta ela. O ator Tuca Andrada já beijou Falabella. Eles atuaram juntos no musical O Beijo da Mulher Aranha. “O beijei tecnicamente, como beijaria as atrizes”, diz Tuca.

Hoje, a atriz Thaís Fersoza (foto acima) tira o beijo em cena de letra

O primeiro beijo em cena da atriz Thaís Fersoza foi o segundo de sua vida. Na época com 17 anos, o beijo aconteceu na novela Corpo Dourado, de 1998, com o ator Java Mayan. “Foi muito estranho, tive de fazer algo que não sabia.” No dia da gravação, passou o tempo todo rezando. Mesmo assim, teve de repetir a cena três vezes. Hoje, prestes há fazer 26 anos no dia 13 de março, Thaís tira tudo de letra. “Não pode ficar falso. Quando a cena pede, beijo mesmo”, conta.

A atriz Alessandra Negrini, que encara a situação de uma forma particular: “Para mim nunca é de verdade, mesmo quando tem língua”. Sinal de que só é técnico quem quer.


A Receita da Escola Paulistana


Há trinta e nove anos, Beto Silveira (foto acima) ministra cursos de interpretação em São Paulo. Ele, que já lapidou Fábio Assunção e Ana Paula Arósio, afirma que não existe aula específica para ensinar beijo técnico.

  • Língua: “Não deve ser usada. A câmera não vai entrar na boca dos atores para filmar! Um beijo de canto de boca é mais romântico do que um beijo caloroso”
  • Melhor ângulo: “Geralmente, o rosto da mulher é mais bonito e, por isso, o escolhido para ser focado pela câmera”
  • Olhos: “Fechados”
  • Mãos: “Ficam ou na cintura ou apoiadas nos ombros, envolvendo o pescoço”
  • Respiração: “Nunca pensei nisso antes”
  • Lábios: “Um beijo não tem de ser molhado. O ator não precisa ser exposto dessa maneira”
  • Tempo de duração: “Não me lembro de ter assistido a um beijo de mais de vinte segundos. É muito tempo para um beijo”
  • Beijo técnico ideal: “Primeiro, os atores se olham no fundo dos olhos. Na cena seguinte, aproximam-se, tocam os lábios e se afastam. Novamente, olham nos olhos, miram os lábios e se beijam”

    A Receita da Escola Carioca


    Ator, diretor brasileiro e professor de interpretação, Cecil Thiré (foto acima) já formou Thiago Lacerda, Marcos Palmeira e Patrícia Pillar, entre outros. Em suas aulas são ensaiadas cenas românticas, como beijos e abraços. Não há, porém, uma disciplina que ensine os alunos a beijar.

    • Língua: “Os atores devem passar a sensação de que a língua está dentro da boca do parceiro de cena”
    • Melhor ângulo: “O rosto da mulher deve estar voltado para a câmera”
    • Olhos: “Sempre fechados”
    • Mãos: “O beijo exige um abraço”
    • Respiração: “Igual à de um beijo de verdade. Não precisa prendê-la na hora agá”
    • Tempo de duração: “Não há. Deve rolar enq uanto durar a cena”
    • Lábios: “Têm que estar contraídos e deve-se movimentar a boca”
    • Beijo técnico ideal: “Nada mais é do que um contato físico frio, sem muita emoção”


    Tarcísio, décadas de beijos


    Há quase cinco décadas povoando o imaginário feminino, o ator Tarcísio Meira, (foto acima) 74 anos, permanece imbatível como o grande galã da tevê brasileira.

    Ele beijou a nata das atrizes nacionais. Entre Glória Menezes, sua mulher, e par em Irmãos Coragem, de 1970, e Renata Sorrah, com quem contracena hoje em Um Anjo Caiu do Céu, viveu cenas de amor com atrizes como Bruna Lombardi, Vera Fischer e Isadora Ribeiro. Quem o beijou, não esquece. “Não tem pra ninguém”, decreta Isadora, seu par em Pátria Minha, de 1994. “Só encostamos os lábios.

    Com Glória Menezes em 1970

    Naquela época jamais beijaria ninguém, nem o Tarcísio, de língua. Mas agora beijaria”, diz ela. Quem não o beijou, se arrepende. A atriz Lolita Rodrigues atuou com ele em duas novelas nos anos 60.

    Com Glória Menezes em 2009

    Beijos no rosto simulavam beijos na boca por exigência de seu marido, Airton Rodrigues. “Lamento não ter beijado o Tarcísio, ai que raiva!”, diz ela. “A Glória sabe que sou louca por ele. Quando nos encontramos pergunto a ela: ‘como vai o nosso marido?’”


    Enquete e a Sua Participação


    O beijo em cena de Lázaro Ramos e Débora Falabella na novela Duas Caras (2007), da Rede Globo

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    Colaboraram: Rosângela Honor, Vivianne Cohen e Rodrigo Cardoso

    6 comentários:

    1. beijo técnico não existe! isso é parafernalia dos artistas, diretores e autores!

      como pode o artista dizer que vive a personagem e no momento do beijo dizer que é técnico, beijo profissional ou seja lá o que for?

      Então quer dizer que nas cenas de beijo o artista deixa de ser personagem para ser ele mesmo?

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    2. tem artista que é sem vergonha e se aproveita das cenas de beijo e sexo para tirar uma casquinha!

      no mundo artistico de técnico só tem os aparelhos (câmeras, microfones, efeitos...) e a equipe! O resto é tudo mais real do que se imagina!

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    3. parabéns para a cia. atemporal por esta materia fabulosa!!!!!

      voces arrassaram!!!!!

      um abraço para todos desta companhia!!!!!!

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    4. We love your blogs ... Obrigado por nos seguindo. Kisses from Chennai Índia:)

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    5. Sou artista plástico, sigo seu blog e gosto de ver o que é postado aqui.

      Abraço
      Humberto Rosa

      http://www.artviralatas.blogspot.com

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    6. Seu comentáro está aguardando moderação

      Sem dúvida que sempre que seguimos um blog ou somos seguidos, formamos uma verdadeira teia, capaz de ter um alcance quantitativo e qualitativo para matérias formativas e informativas, que mídia alguma consegue ter. POR ISSO PARABÉNS PELO BLOG.

      Doutra feita, CONVIDO VOCÊ, seus seguidores e quem você segue, para lerem matéria sobre o espetáculo SAGRADO E PROFANO, que ocorrerá na cidade de Senador Pompeu, interior do Ceará, no pequeno Distrito de Engenheiro José Lopes. Experiência artística que mobiliza toda a população, que além de encenar a Paixão de Cristo ainda tem os caretas, que há cerca de 70 anos, saem pelas ruas. Experiência artística, social, política, folclórica, econômica….. que merece ser relatada, imitada e, sendo possível, vista e visitada ao vivo. Boa leitura em:

      http://www.valdecyalves.blogspot.com

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    A Cia. De Teatro Atemporal agradeçe os seus comentários.