segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Humor, Graça e Comédia

Como "Cerveró" no filme "Até Que a Sorte Nos Separe 3 "

Tive meu interesse despertado para o humor como estudo e compreensão após a leitura de uma série de artigos de Artur da Távola, em 1984. Até então, embora fizesse já comédias e humor, considerava isto uma coisa normal, sem muita elaboração e teorias. Um dom natural que eu havia recebido e que desempenhava como forma de ganhar meu pão.

Foi quando li Artur da Távola que tive meu interesse despertado para aprofundar-me mais n o estudo da comédia.

Artur divide o gênero em três estamentos distintos: O Humor, a Graça e a Comédia. (Título que mais tarde daria a um livro meu) . Mas não isenta o ator de trabalhar com os três gêneros num mesmo trabalho. Há momentos em que o ator usa apenas da graça, outros em que usa do humor e outros, da comédia, e há momentos em que ele usa um como trampolim para o outro, saltando, como um trapezista, e levando as emoções da plateia em seu salto.

Concordo com Artur da Távola. São três momentos distintos. O ator de comédias, em cena, ou o comediante, às vezes se desespera com a ausência da gargalhada, com o riso estridente, ininterrupto da plateia.

Já disseram que o riso é a dependência química do comediante. Ele é viciado em ouvir o riso da plateia. Se depender do comediante, a plateia não ficará um minuto sequer sem dar uma gargalhada, mesmo que para isto tenha ele que sacrificar o texto do autor, o direção e até os colegas em cena.

Aviso aos ansiosos, viciados na gargalhada do público: um momento silencioso na plateia pode estar cheio de Graça, como o sorriso da Monalisa. A plateia pode estar com este sorriso nos lábios e apreciando e engraçando-se com o espetáculo; pode estar com os dentes à mostra, num riso maior, pleno de humor, e, só depois, pode arrebentar em estrepitosa gargalhada, confirmando a comédia.

É assim que Artur dividiu em três níveis o Riso.

Estes três momentos, existem sempre nas comédias. São um em três. E são três, em um.

Este é o mistério do riso e da nossa profissão.

Escrito Por Bemvindo Sequeira

Colaboraram: Bemvindo Sequeira; entretenimento.r7.com

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Devemos Cultivar Nosso Jardim

Open Air Theatre, Londres - Inglaterra

Cheguei num tempo em que posso aconselhar a todos que cultivem um jardim. Um jardim pode ser cultivado mesmo numa pequena varanda do seu apartamento, e até mesmo em pequenos vasos no canto de uma sala.

Jardim não necessariamente significa os jardins do Palácio de Versalhes. Não precisa ser tão grande, nem sequer ostentatório. Pode ser apenas o seu jardim.

Cultivo um pequeno jardim na varanda do meu apartamento. Me faz muito bem à alma conversar com as plantas, cuidar delas, e vê-las crescer, verdejar, florir.

Enquanto cultivo meu jardim lembro-me sempre do romance “O Otimismo”, obra de Voltaire ( França 1759) que narra a história de um jovem, Cândido, vivendo num paraíso edênico e recebendo ensinamentos do otimismo de Leibniz através de seu mentor, Pangloss. A obra retrata a abrupta interrupção deste estilo de vida quando Cândido se desilude ao testemunhar e experimentar eminentes dificuldades no mundo. Voltaire conclui a obra-prima com Cândido — se não rejeitando o otimismo — ao menos substituindo o mantra leibniziano de Pangloss, "tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis", por um preceito enigmático: "devemos cultivar nosso jardim."É com esta frase que Voltaire termina o romance.

Apenas relembro Cândido, porque continuo otimista, apesar de toda desgraça e vilania que já vi nesta existência. E é por otimismo que cultivo um jardim, ouvindo as plantas e seu natural canto de amor à vida.

Se você ainda não tem, experimente cultivar um jardim. Vai ver como faz bem à alma.

Escrito Por Bemvindo Sequeira

Colaboraram: Bemvindo Sequeira; entretenimento.r7.com

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Respeite o Seu Corpo E Cuide Dele Com Atenção

Também não é assim... (risos)

Desde o útero materno formamos e recebemos um corpo. Ele vai nos acompanhar por toda a existência. E na verdade ele nem é nosso, apenas emprestado enquanto vivermos. Após a morte devemos devolve-lo à sua natureza: ao pó de onde veio.

Mas é com ele que devemos levar a vida. E o mais difícil é lembrar-se dele e respeitá-lo em todos os momentos. Muitas vezes cuidamos melhor da nossa casa e do nosso carro que do nosso corpo.

Pra começar devo dizer que não acredito que necessariamente um corpo sarado seja um corpo sadio, um corpo que se respeitou. Muitas vezes para ter o corpo sarado – barriga de tanquinho, bíceps e tríceps superdesenvolvidos - exigimos muito além do que o nosso corpo pode suportar, isto quando não usamos anabolizantes para conseguir tais coisas.

Também o que ingerimos de substâncias agressivas e danosas sob a forma de alimentos é outra agressão e desprezo pelo corpo.

Estressamos o corpo, maltratamos o corpo, e até mesmo quando cuidamos dele em excesso com óleos, e outros cosméticos, que só tem por objetivo aumentar o lucro de certas indústrias, ainda assim estamos maltratando o corpo.

O corpo é sagrado. Tão sagrado que há no Código Penal – em todos os países – o respeito ao corpo após a morte, configurando-se vilipêndio de cadáver qualquer ato danoso praticado contra o corpo inerte após o óbito.

Assim também, em vida, corpo é sagrado. Para os que creem, é a casa onde habita nosso espírito. E uma casa suja ou necessitando de reparos urgentes só pode trazer danos e prejuízos ao espírito.

Cuidemos, pois, com carinho, atenção e zelo deste aglomerado de fibras, ossos, e carnes que nos acompanharão enquanto vivermos.

Escrito Por Bemvindo Sequeira

Colaboraram: Bemvindo Sequeira; entretenimento.r7.com

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Os Maiores “Caqueiros” No Teatro Brasileiro

Os atores Jorge Dória e Carvalhinho na comédia "A Gaiola das Loucas"

Atores há que não passam em cena sem um caco colocado no texto. Eu mesmo confesso que não resisto a um “aprimoramento” do autor (risos). Herança do grande ator Leopoldo Fróes - década de 1930 - este sim, o patrono do “caco” no Brasil. “Depois dele o dilúvio”, para os autores. Quando conversando com o já provecto Dr. Daniel Rocha, à época presidente da SBAT — Sociedade Brasileira de Autores Teatrais - sobre cacos, ouvi dele mesmo, contemporâneo que fora de Fróes, a afirmativa que ninguém, desde então colocara mais “cacos” ou improvisações num texto que Leopoldo Fróes, e ria das suas diatribes.

É claro que o “caco”, a meu ver, não cabe nas clássicas e bem-acabadas obras-primas.

Ao meu ver o “caco” surge exatamente da fragilidade de um texto em certo momento da peça. O ator atilado percebe a falha do texto. Então esse comediante, não pode e nem deve deixar cair o ritmo da comédia; é seu instinto que cria o “caco” para preencher a quebra da harmonia naquele momento.

Um dos maiores “caqueiros” contemporâneos, o falecido ator Jorge Dória, com muito humor me disse durante nossas apresentações de “Bonifácio Bilhões”, comédia de João Bethencourt:

- Bemvindo, quem põe caco é ator menor, eu escrevo textos inteiros — e ria deste chiste.

Mas há um consenso entre todos os comediantes: “caco” não se responde. É vergonhoso ver um ator pagando “mico” respondendo de forma medíocre a um “caco” brilhante, apenas porque quer pegar carona no brilho do outro. Apenas porque acha que tem o mesmo dom do “caqueiro”. O caco pertence ao mundo dos cômicos, e não dos atores.

O “caco” está na origem da improvisação teatral.

O “caco” seria um ensaio de improvisação.

Pessoas rígidas têm horror ao “caco”, talvez porque ele desordena seu sistema lógico, sua estrutura fechada. A maioria dos atores preferem ir para o abismo com um texto ruim a “reescreve-lo” com cacos.

Mas o “caco”, compreendo eu, é autorizado pela improvisação no teatro.

Ao longo dos séculos, houve muitos diferentes estilos de improvisações.

O ancestral mais direto da improvisação moderna é provavelmente a Commedia Dell’Arte, que foi popular por toda a Europa por quase 200 anos, com início por volta de 1500. Companhias de atores performáticos viajavam de cidade em cidade apresentando shows nas praças públicas e em palcos nos mercados. Eles improvisavam todo o diálogo. Só mais tarde, com Goldoni, vai se criando um texto mais fechado e escrito para a Commedia Dell’Arte.

Pequeno vídeo sobre o caco:


Escrito Por Bemvindo Sequeira

Colaboraram: Bemvindo Sequeira; entretenimento.r7.com